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NOS Alive’17: dia 3 – A Revolução faz a fé

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Corria o mês de março quando, após terem esgotado os passes para os três dias da 11ª edição do NOS Alive, foi lançada a notícia de que também os bilhetes diários para 8 de junho — terceiro e último dia do festival — haviam esgotado. O dia finalmente chegou e o Passeio Marítimo de Algés encheu para receber a pop radio-friendly de Imagine Dragons, os gigantes Depeche Mode, entre uma miríade de concertos bastante eclética.

A nossa tarde começou no palco Coreto, onde a música portuguesa foi senhora e rainha durante toda esta edição. Coube a Nuno Rodrigues — aka Duquesa — dar o pontapé de saída, apresentando o seu Norte Litoral, longa-duração lançado no início do ano, no qual canta tanto em português — como, por exemplo, no single que dá nome ao disco — como em inglês, ou não dividisse o seu tempo entre este projecto a solo e as funções de frontman dos Glockenwise. Para além das canções fofinhas a que já nos habituou, Duquesa lançou ainda um repto importante, a reter neste e nos demais festivais: “Comprem discos, não comprem bifanas”.

Continuando na categoria “meninos queridos da tuga”, seguiu-se, no mesmo espaço, Filipe Sambado. Para além de intérprete e compositor, Sambado  acumula também o cargo de produtor de grande parte dos novos projectos de música portuguesa independente que têm aparecido. Embora a maioria das suas aparições ao vivo seja feita a solo, num formato minimalista só com voz e guitarra, nalgumas ocasiões especiais faz-se acompanhar por uma banda (os seus “acompanhantes de luxo”) de amigos, todos eles nossos conhecidos de outros projectos.
O seu look meio andrógino com que se apresenta ao vivo chama a atenção, mas mais do que isso, são as letras que constituem o seu statement (“deixem-me lá não ser gay, eu sou só muito vaidosa // e se eu parecer uma mulher, o que é que isso quer dizer”). Embora Vida Salgada, o seu último álbum de originais, tenha sido lançado no ano passo, temos já alguma vontade de ver alguns dos temas tocados ao vivo e ainda não editados a ganhar vida num novo disco.

Na conferência de balanço do festival, tomámos conhecimento da notícia mais amorosa desta edição: Durante o concerto de The xx, uma espectadora grávida teria entrado em trabalho de parto daquele que ficaria logo conhecido como o “primeiro filho do NOS Alive”, ou não tivesse nascido, horas mais tarde, enquanto decorria o concerto de The Kills.

Para muitos dos que encheram o recinto no último dia, os Imagine Dragons foram uma das principais atrações para os mais jovens. No entanto, não pudemos deixar de reparar no aumento do número de espectadores mais velhos, muito provavelmente seguidores de Depeche Mode.
Depois de rodar infinitamente nas rádios nacionais, a banda de Los Angeles voltou a Portugal para apresentar Evolve, o seu mais recente disco, lançado no mês passado. Entre os hits pop como Radioactive ou On top of the world, Dan Reynolds aproveitou a multidão em si vidrada para apelar à paz e união de todos: “Nós vivemos num mundo dividido que nos separa por raças, orientação sexual e religião. Há terroristas que nos querem impedir de vir a festivais. Acreditam nisso? Nunca vão conseguir. Não deixem que isso aconteça”.

Tempo então para explorar o que se passava noutros palcos e assistir a uma verdadeira esquizofrenia musical. No coreto, Benjamin fazia ecoar a sua pop fofinha, enquanto no palco Clubbing, era a vez de Mike el Nite se fazer ouvir. Optámos pelo Justiceiro e rumámos ao Clubbing. O rapper trouxe consigo alguns convidados, como Nerve ou ProfJam. “Hoje não há bandas para fazer moche, bora lá fazer isto!”, ameaça Miguel Caixeiro antes de se atirar — literalmente — ao público. Entre auto-tune, boas dicas e beats pesados, Mike el Nite fez a festa sendo igual a si próprio. Como não adorar o sample de Falésia do Amor, dos Santamaria, no tema homónimo a essa clássica banda dos 90’s portugueses? Como ficar indiferente a T.U.G.A ou a Oliude (dona de um videoclipe incrível e cinemático). Por muitas presenças em festivais que já tenha feito, optar por ver Mike el Nite é sempre uma escolha segura.

Uns metros à frente, e para algo completamente diferente, os Fleet Foxes subiam ao palco Heineken para protagonizar aquele que foi um dos concertos favoritos de quem por lá passou. Agora sem Father John Misty, que foi pregar para outras freguesias e já não faz parte do grupo, a banda voltou ao NOS Alive numa nova fase da sua carreira. Estão mais adultos, e a sua sonoridade afasta-se agora do folk que lhes conhecíamos inicialmente para explorar outros territórios. Ainda assim, houve tempo para alguns temas mais antigos, e dos quais, confessamos que já tínhamos saudades. Falamos de Ragged Wood ou Mykonos, embora a banda de Seattle viva bem para lá dos temas que os celebrizaram. Estamos curiosos para continuar a assistir a esta evolução.

O concerto mais esperado da noite chegava às dez horas e muito se pode dizer sobre Depeche Mode. A banda de culto  já cá anda há 37 anos a produzir música incrível, marcando um estilo que é só seu e que já influenciou largas dezenas de artistas. Depois de já ter renascido várias vezes, Dave Gaham tem em palco uma presença assombrosa e muito peculiar, o que o torna um dos grandes vocalistas dos nossos tempos (ou de sempre, aliás). Este ano, a banda britânica editou Spirit, mais um disco de originais a juntar aos treze álbuns anteriores que constituem a sua discografia. Spirit pode não ter conquistado logo à primeira audição, embora haja várias piscadelas de olho a sonoridades mais antigas. Where’s the revolution é inegavelmente um grande tema, com uma mensagem forte e mais-que-apropriada aos dias que correm.
Foi então este álbum que veio ser apresentado a Portugal, ainda que bastante bem balançado com os enormes clássicos de outros tempos. Ouve-se Revolution dos Beatles ainda com as luzes do palco apagadas, mas é com Going Backwards que se dá a (calma) entrada da banda em palco. Assistir a um espectáculo de Depeche Mode será sempre uma grande experiência, não só em termos musicais, claro, como também visualmente, com todos os vídeos criados propositadamente para ilustrar as canções em concerto. A pain that i’m used to surge mais dançável e menos rockada que o original, com o instrumental da versão mixada por Jacques Lu Cort, mas o público parece não estar concentrado durante os primeiros temas. Há uma ironia latente ao ouvir o verso “Come on people, you’re letting me down”, mas quanto tempo conseguirão as pessoas resistir ao brilhante Dave Gaham? Brilhante em todos os sentidos, diga-se. No vestuário, na voz e na performance em palco. “He’s the new Jesus, man!”, grita alguém atrás de nós.
Verdade seja dita: era para ouvir os grandes clássicos que grande parte da multidão lá estava. E seja feita a sua vontade com Everything Counts, cantada por Martin Gore e acompanhada a plenos pulmões por todo o público, com Gaham a assumir a posição de maestro, que tão bem lhe assenta; com Wrong, que não tem feito parte dos últimos alinhamentos, a deixar-nos agradavelmente surpreendidos; e, obviamente, com Enjoy the Silence  a levar todos ao êxtase e a fazer aparecer algumas caras de “epá, até que enfim”. A actuação dos Depeche Mode foi tudo o que esperávamos dela, mas não deixa de ser um pouco decepcionante assistir à dificuldade que o público dos festivais de hoje em dia tem em ouvir temas mais calmos e introspectivos. Não só de dança e BPMs acelerados vive um festival, muito menos a vida. Todos seríamos pessoas mais incompletas se não existissem baladas. Pensem nisso.
A chegada ao encore aconteceu mais rápido do que gostaríamos, ao som de Home, Walking in my shoes (cantada também a plenos pulmões), I feel you e com Personal Jesus a levar todos à loucura nos últimos minutos do concerto, à boa maneira Depeche Mode. Amén.

A noite continuou no palco Heineken com dois tremendos concertos a fechar com chave de ouro esta edição do NOS Alive: The Avalanches, a fazer dançar tudo e todos com um pé na electrónica e outro no hip-hop; e Peaches, igual a si própria, a fechar a noite com nudez, preservativos gigantes e soutiens a voar, rompendo todos os cânones e sendo fiel à sua (boa) reputação.

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Joana Esperança Andrade (texto)

Inês Sousa Vieira (foto)

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