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NOS Alive’17: Dia 2 – Longa vida ao Rock’n’Roll

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“It’s gonna be a long night”, prometia Dave Ghrol perante um mar de gente que, claramente, estava lá para o ver, mais do que qualquer outra coisa. A promessa cumpriu-se no segundo dia de NOS ALIVE: uma noite longa, que transpirou rock por todos os poros com The Cult, The Kills e Foo Fighters, mas onde Parov Stelar dominou com quem é mais fã de bater o pé do que de fazer headbanging.

O Coreto e o Palco Clubbing estiveram destinados a mostrar o que de bom se faz em Portugal. Com curadoria de Pedro Ramos, da Rádio Radar, o Clubbing trouxe Kilimanjaro para começar a tarde, entrando a pés juntos com uma boa dose de rock, guitarras destorcidas e muito barulho (na melhor das acepções).
Mas à que ter em conta que isto do rock não é coisa de homens, e que as mulheres o sabem fazer tão bem ou melhor. Prova disso foram as meninas que subiram aos palcos vizinhos apenas com meia hora de intervalo, deixando-nos com o coração dividido e a tentar fazer a escolha mais sensata. No clubbing, as irmãs Pega Monstro, uns metros à frente, no palco Heineken, as californianas Warpaint.

Pega Monstro são Júlia e Maria Reis, duas irmãs que apenas com guitarra e bateria têm vindo a dar provas de grande crescimento no rock português. O seu último longa duração — Casa de Cima, editado no mês passado — veio confirmar as manas Reis como grandes letristas, capazes de partir a loiça (tal como o nome do single de apresentação) onde quer que vão. Seja em salas pequeninas ou em festivais de grande dimensão como este.

Já as californianas Warpaint também não desiludiram quem passou pelo palco Heineken para as ver. Chamar-lhes “meninas bonitas”, apesar de ser verdade, não deixa de ser redutor para descrever as Warpaint. Se antes – por volta de 2012 quando passaram pelo Alive pela primeira vez – nos trouxeram uma dream pop calminha, com guitarras pesadas e ritmos mais lentos, agora, estão mais despertas para a bateria e para os ritmos dançantes. “Wanna Dance?”, pergunta Jenny Lee. Claro que queremos. E mal soam os primeiros acordes de So Good, toda a gente aceita o convite para dançar e acompanhar os “oh oh oh” do refrão em coro. New song e Disco//Very marcaram as despedidas, também elas dançantes com toda a plateia muitíssimo satisfeita com este final de dia/início de noite.

Entretanto, já os The Cult tocavam no palco principal. Banda de culto para muitos dos que cresceram ali entre o final dos 80’s e os 90’s, os The Cult já passaram por algumas substituições na sua formação inicial, mas as canções continuam na cabeça e nos corações de todos os fãs. Sim, é normal que não tenham o mesmo peso dessa época, e que o peso da idade se faça sentir, quer na banda, quer no público. Os tempos são outros, as vontades também, e o sentimento de “há quanto tempo não ouvia isto” apodera-se de muitos dos presentes. Isso acontece em Electric, Love, ou até na tão esperada She Sells Sanctuary, que para os tugas será sempre lembrada como o genérico do programa Portugal Radical, da SIC nos anos noventa.

Voltando às senhoras, que são quem efectivamente manda nisto tudo, Alisson Mosshart é uma das grandes divas do rock dos nossos tempos. Já colaborou com grandes bandas como Placebo, Cage the Elephant, Artic Monkeys, ou Primal Scream, fez par com Jack White nos Dead Weather, mas é dos The Kills que a conhecemos de origem, e foi com os The Kills que nos visitou pela nona vez, esta noite.
Alisson Mosshart e Jamie Hince vieram apresentar Ash and Ice, o seu último longa duração, lançado no ano passado, com espaço para alguns temas mais antigos. Já sabemos que desta dupla só podemos esperar coisas boas: a presença animalesca e hiperactiva de Ms.Mosshart, dificultando a vida aos fotógrafos com o seu cabelo esvoaçante, é avassaladora e deixa-nos de olhos arregalados a pensar que um dia, quando formos grandes, queremos ser assim. Ou pelo menos ter tanto estilo quanto ela. Impressionante também é a forma como os The Kills conseguem arrasar mesmo em condições adversas. O som não estava perfeito, embora tenha melhorado significativamente a meio do espectáculo, e o público, claramente, era mais de Foo Fighters do que seu, pelo que muitos preferiram conversar em vez de prestar atenção à enorme banda que estava em palco. Enfim.
Pelo alinhamento passaram Doing it to death e Heart of the Dog, do último álbum, U.R.A Fever e Tape Song, de Midnight Boom (2008), fechando com No Wow, tema homónimo do longa-duração de 2005, passando assim por toda a sua discografia de forma sublime.

Mas lá está, a esmagadora maioria da multidão que encheu o NOS ALIVE estava ali única e exclusivamente para ver Foo Fighters. A banda de Dave Grohl e “seus amigos” (como os apresentou) subia ao palco pouco depois da meia noite para mais de duas horas e meia de concerto. A banda norte-americana já havia sido bem recebida noutras edições do festival — mais precisamente em 2012 e 2015 — dando em troca concertos bem extensos com espaço para todos os clássicos e mais alguns. “Enquanto vocês tiverem voz, eu tenho voz.”, ameaça — e cumpre! — Dave Grohl. Afinal de contas, não é por acaso que o ex-Nirvana é uma das grandes referências vivas do Rock. Dave Grohl sabe ser boss dentro e fora de palco, pela maneira como gere a sua carreira e como move multidões onde quer que vá. É incrível ver como toda a multidão está satisfeita e sabe de cor as letras de Pretender, All my Life ou Times like these. Em duas horas e meia houve tempo e espaço para tudo, até para revisitar os primórdios dos Foo Fighters, com temas como This Is a Call, do primeiro álbum de originais da banda, lançado em 95, ou Monkey Wrench, do sucessor The Color and the shape (1997).
Para os grandes fãs, será quase ofensivo falar em “pontos altos” do espectáculo, ou não fosse o todo uma experiência inesquecível, mas não pudemos deixar de ficar contentes com a subida de Alisson Mosshart ao palco para cantar La Dee Da, em dueto com Mr.Grohl.
À boa maneira rock and roll tivemos Dave junto do público, algum mosh, ainda que tímido, e ainda um coro de “E salta Dave, e salta Dave, olé, olé” a ecoar por todo o Passeio Marítimo de Algés. Foi para mover multidões assim que se inventou o rock and roll.

Mas para os adeptos dança, Parov Stelar fazia concorrência aos norte americanos, tocando no Palco Heineken em live set, com vocalista e um conjunto de sopros. O produtor e dj austríaco é conhecido por fazer a festa onde quer que actue, e a actuação no NOS ALIVE não só não foi excepção, como superou quaisquer expectativas que pudessem existir. Secções rítmicas aceleradas, sopros com melodias catchy e viciantes, uma voz feminina rouca e sensual, e estava feita a combinação perfeita para uma grande festança. À boa maneira dos reality shows, podemos até dizer que “só quem lá esteve é que sabe”. Entre tentativas de dançar em comboinho, meninas às cavalitas, e temperaturas altas, Parov Stelar conseguiu ser rei numa noite dominada pelo Rock.

Tempo depois para recuperar energias e regressar a casa, que passado umas horas há novo round. O último de três dias de NOS ALIVE vai chegar mais cedo do que gostaríamos, trazendo consigo Imagine Dragons, Fleet Foxes, Cage the Elephant e Depeche Mode, entre tantas outras — boas — dezenas de nomes. Estamos prontos, venham eles!

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Joana Esperança Andrade (texto)

Inês Sousa Vieira (foto)

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