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NOS Alive’17: dia 1

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Depois dos passes esgotados, da procura incessante por bilhetes à última hora, das playlists ouvidas de fio a pavio e dos looks preparados, começou finalmente mais uma edição do NOS ALIVE. Todos os anos, o festival move multidões até ao Passeio Marítimo de Algés, oferecendo um cartaz eclético, grande em quantidade e em qualidade, o que, por vezes, dificulta escolhas e divide grupos de amigos.

Passear pelo recinto do NOS Alive é não só passear por um dos maiores festivais do país, como também experienciar um fenómeno cultural muito curioso — muitas nacionalidades diferentes, faixas etárias distintas, outfits que vão das já clássicas coroas de flores, a camisas com padrões florais, passando por bonés com ventoinhas ou vestidos de noiva – que ano após ano nos deixam sempre surpresos com o poder massificador da música e deste tipo de efemérides.
Esgotadíssimo como já se esperava, o recinto do NOS ALIVE abriu as suas portas às três da tarde e foi ficando cada vez mais preenchido à medida que as horas passavam. O palco principal foi inaugurado pelos portugueses You Can’t Win Charlie Brown. Já são nossos conhecidos há uns aninhos, mais precisamente desde 2009, quando editaram o seu EP de estreia, mas desde essa altura muita coisa mudou. A sonoridade folk, calminha e melancólica está agora mais dancável e amadurecida, merecendo o lugar de destaque no maior de todos os palcos. Afinal de contas, os You Can’t Win Charlie Brown são um dos vários exemplos que temos como cartão de visita da música portuguesa (mesmo que cantada em inglês), de que Portugal está bem vivo e recomenda-se no panorama musical.

Já com as fitas cortadas e inaugurado o palco principal (aka NOS Stage), coube aos Alt-J enfrentar a multidão que chegava ao recinto, ainda com luz do dia. Nada que os intimide. Afinal de contas, já por cá passaram em 2011 no Milhões de Festa, no ano seguinte, no Vodafone Mexefest, e precisamente no NOS ALIVE, em 2013 e 2015. Como bons repetentes, a banda britânica trouxe os temas que já conquistaram os nossos corações desde desde as suas primeiras visitas, mas também outros de Relaxer, o fresquíssimo longa-duração, editado no mês passado. De Relaxer, fica-nos na memória — quer em álbum, quer ao vivo — as melodias catchy em In Cold Blood, o beat de Deadcrush, mas é nos clássicos (será que já lhes podemos chamar clássicos?) que a multidão rejubila e se faz ouvir em coro. Em “Matilda”, todas as vozes se fundiram para cantar o refrão, muito se dançou com a viibe oriental de Taro, com o baixo poderoso de “Fitzpleasure” e, em jeito de sobremesa, “Breezeblocks” fechou o alinhamento de uma hora de concerto quase certinha. Som irrepreensível, mas alguma pena pelo horário diurno não deixar tirar proveito do jogo de luzes que acompanhou a banda.
Tempo então para explorar outros palcos, fazendo campeonatos de fintas entre a multidão (pena não nos termos cruzado com Renato Sanches, isso sim ia ser competir a sério) e tentar chegar à outra ponta do recinto. No palco Coreto, a noite foi tomada de assalto pela Enchufada, produtora que já  conhecemos de outras andanças — ou outros partires-de-chão — e KKing Kong dominava os pratos com Afro House, Funk e toda a sonoridade a que a crew Enchufada já nos habituou.

Uns metros à frente, já Ryan Adams tocava no palco Heineken. Fazendo-se acompanhar por uma banda bem composta (tão composta, tendo até um tocador de pandeireta vestido, da cabeça aos pés com um disfarce diabólico), o rock gentelman da Carolina do Norte provou ter uma legião de fãs já simpática em terras lusas. “This place rules! You rule!”, disse entusiasta perante uma plateia não menos contente. Mas como somos poucos, os concertos são muitos, e a vida é feita de escolhas, tivemos que abandonar Ryan, uma vez que The xx subiriam ao palco principal pouco depois, e seria inadmissível perder uma das grandes actuações desta noite.


O que dizer sobre os The xx? Já nos apaixonámos por eles — e eles por Portugal — há muito tempo. Mas ao contrário das relações que se desgastam, esta — entre o público português e o trio britânico — parece estar cada vez mais forte e comprometida. Prova disso foi o espectáculo sublime que trouxeram ao NOS ALIVE, mostrando que são mais multi-facetados do que poderão parecer a uma primeira audição de cada um dos discos. Começando com a sua épica Intro (aqui carregadíssima de baixo e bateria, tornando-a ainda mais poderosa do que já é), passando para Crystalised (facilmente enquadrável na categoria “música para fazer ‘o’ amor”), por Shelter com um sample de guitarra incrivelmente roubado a Better of Alone, de Alice DeeJay (porque uma boa dose de eurodance dos anos 90 faz sempre bem às nossas vidas), todo o lineup foi impróprio para cardíacos, ou não  tivesse sido uma chuva de emoções capaz de derreter até o mais insensível dos espectadores. Destacam-se Violent Noise, a comovente Say Something Loving, mas também temas mais dançáveis, com Jamie XX a dar um ar da sua graça nos pratos, como Loud Places e On Hold. A despedida deu-se ao som de Angels, que Romy Madley Croft dedicou à sua noiva. Arriscamos dizer que até os menos crentes saíram deste espectáculo a acreditar no amor.

A fechar o palco principal, eis que chega finalmente The Weeknd. Se quando por cá passou, há cinco anos, no NOS Primavera Sound, muitos não o conheciam, hoje em dia Abel Tesfaye é — inegavelmente — uma estrela. E não, não se trata de um trocadilho com Starboy, ainda que o tema com o qual costuma abrir os concertos possa ser considerado autobiográfico. The Weeknd entra a pés juntos mostrando a razão de ser um dos grandes nomes da música actual, com um pé na pop e outro r&b. Os músicos que o acompanham praticamente não se vêem (afinal de contas, Abel é o “motherfucking Starboy” e o espectáculo é todo seu), mas há efeitos de luzes e pirotecnia suficientes para o considerarmos a personificação do fire emoji. As temperaturas sobem com reminder, Six Feet Under ou  Sidewalks a fazer gingar as ancas, fechar os olhos, e aumentar os níveis libidinosos dos casais da plateia.
No entanto, são os temas mais pop que mais rodam nas rádios, e que trouxeram o músico canadiano para as luzes da ribalta. A prova disso é o sucesso que Secrets (o mais recente single com direito a videoclip), I Can’t Feel My Face ou I Feel it Coming fazem perante a plateia infindável que se fez ouvir nos refrães a alto e bom som. Apesar de ter feito algumas alterações ao alinhamento habitualmente apresentado nesta tournée, a despedida deu-se, como já seria de esperar, ao som de The Hills, deixando os (e as) fãs em chamas.

Grande foi a debandada pós-Weeknd (porque, ironicamente, ainda não estamos no fim-de-semana), mas decidimos ser corajosos para ver e ouvir Glass Animals, que subiriam ao palco às três da madrugada. As nossas mães ensinaram-nos que o esforço compensa, e a prova disso foi aguentar mais umas horas de pé para assistir aquele que arriscamos ter sido um dos melhores concertos da noite. Apesar da hora tardia, o palco Heineken — considerado “palco secundário”, mas não de certeza no que toca à qualidade dos artistas que por lá passam — encontrava-se cheio, com grande parte da plateia a cantar de cor e salteado as canções da banda de Dave Bayley (ele próprio, um grandíssimo animal de palco (no melhor dos sentidos).

Muito se dançou ao som do baixo gingão e das melodias brincalhonas — ainda que com letras bem sérias, atenção — de The Other Side of Paradise , Season 2 Episode 3 ou Zooey. Com Bayley hiperactivo, a saltitar por todo o palco, o refrão viciante “Pinapples are in my head”, de Pork Soda, teve direito até a ananases voadores, vindos do palco, para a plateia. Ainda estamos no primeiro dia de festival, é certo, mas este tem entrada directa na lista de melhores concertos do NOS ALIVE 2017.
Terminou assim o primeiro de três dias de festival. Para o segundo dia, assolam-nos algumas dúvidas existenciais: será que os Foo Fighters vão repetir a proeza — ou até superar — o espectáculo de três horas da sua última passagem pelo Alive? Será que conseguimos ver as manas Pega Monstro sem perder as lindíssimas Warpaint? Chegaremos a tempo de dançar com Parov Stelar? Tudo será respondido dentro de umas horas. Até já.

 

Joana Esperança Andrade (texto)

Inês Sousa Vieira (foto)

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