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Milhões de Festa (reportagem)

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A chegar ao centro de Barcelos a primeira coisa que se deparamos é com a tradicional feira de Barcelos. Também já é uma tradição do festival, ser assim recebido ao início da tarde deste dia 0. Contudo, é continuar o caminho e evitar a confusão, pois a prioridade é ir buscar as pulseiras para depois ir para o campismo montar as tendas.

Depois de tudo pronto no acampamento, há que sair deste, pois em breve começam os concertos. Lá fora, já começam a desmontar as tendas da feira, enquanto alguns festivaleiros, no parque, ainda montam as tendas que serão a casa de muitos nos próximos dias. Uma realidade que mostra dois eventos já típicos desta cidade, um é de apenas um dia, o outro é de quatro (a contar com o dia 0). Quatro dias de verdadeira festa, este ano com mais afinco de ser comemorada, não fosse este o ano em que já são duas as velas no bolo. São 10 anos, uma data de respeito e total consideração para um festival que surgiu da maneira mais peculiar possível, primeiro no Porto e depois em Braga, e em ambas as cidades organizado da maneira mais do it yourself.

Entre as conversas iniciais de festival, surge o Xispes como temática, pois para muitos este será um ano um pouco diferente, não fosse este o primeiro ano do Milhões de Festa em Barcelos sem o famoso Xispes, que para quem não sabe era um local que era mais que um bar, café ou tasco. Era um local abençoado que fazia melhor a função de centro cultural e de local de concertos de que 90% dos locais destinados para esse fim em Portugal. Para além dessa vertente cultural, o Xispes também era o maior pesadelo para os vegetarianos, visto que apenas um panado dava para o almoço, jantar e pequeno-almoço. Muitos pensam agora em alternativas para comer, mas isso certamente não será um problema.

Os concertos começam com Ensemble Insano, e apesar de não ter sido anunciado o local antes, se ficou logo a saber que seria no centro do mercado municipal, com vista para o concerto através do piso térreo e de um superior. Não há melhor maneira (e não foi a primeira vez que se realizou isto, muito pelo contrário) de que sermos recebidos pelos nativos da terra com as suas boas vindas. Foram dezanove músicos de três gerações diferentes, em que se denotou as grande qualidade destes. Um concerto agradável, principalmente entre a conjugação das várias guitarras com as duas baterias. Não nos deram comida como é costume ser a regra das boas vindas, mas deram melodias que nos encheram os ouvidos. A expressão de que o Rock Rolla em Barcelos, não veio por acaso e é uma grande verdade nesta cidade pautada para a música (este festival certamente também ajudará muito). Não conhecem muito sobre a cena musical de Barcelos? Façam só uma pequena pesquisa que vão encontrar muitos bons nomes, está bem?

No fim deste concerto, muitos ficaram pela zona do mercado municipal, outros pelo campismo e outros dirigiram logo para o recinto e quem visse do alto esse frenesim de pessoas do céu, certamente que veria a forma de espaço retângulo em retângulo. No recinto, alguns já esperavam pelo concerto de Live Low, mas enquanto este não começava alguns aproveitaram para ver o novo lugar do palco Taina e falar sobre a triste notícia que se acabara de saber sobre o Chester Bennington.

Coube ao quarteto Live Low ter as honras de abrir o palco Milhões. Estavam a jogar em casa, não por serem de Barcelos, mas por pertencerem à Lovers & Lollypops, que é nada mais que a editora e promotora que organiza este festival. Os Live Low são um projecto que consegue juntar as texturas eletrónicas aos ritmos de cancioneiro. Muitos terão sonhado por este momento do regresso do Milhões, e lindo sonho foi também terem tocado a interpretação deles de “Lembra-me de um sonho lindo”, de Fausto Bordalo Dias.

Os intervalos entre os concertos eram preenchidos pelo projecto Favela Impromptu que é nada mais que um projecto, dos infindáveis projectos do colectivo Favela Discos, que também é editora e promotora sediada no Porto. IN TRUX WE PUX. Se alguém tinha receio de que o silêncio reinasse no meio dos concertos, isso foi dissipado com as participações dos vários elementos que participavam. Não houve silêncio nem imobilidade e as performances foram como se fossem para afastarem as trevas em todos os breves instantes. Começaram variações de improvisação de musica mais ambiental e com o avançar das horas na noite foram começando a variar para improvisações no espectro já da vertente de música eletrónica.

Os concertos continuaram, e foi a vez dos Enablers trazerem através de um Pete Simonelli em transe xamânico, um spoken word narrado na perfeição (que vai para além de um mero vocalista) com as instrumentalizações rock da banda. Um concerto muito bom, para um publico totalmente apático, muito tímido e indiferente, isto mesmo depois dos incentivos da parte da banda para a aproximação do palco. Mereciam muito mais feedback do público. Se fosse Shellac ou Slint já estavam todos nas grades.

Depois, em palco ocuparam dois projectos que se juntaram para este concerto, são eles Cigarra e BirdzZie. BirdzZie é de Portugal e Cigarra é do Brasil, mas ambos exploraram os sons tropicais mesclados com as batidas eletrónicas. Foi um bom pretexto para celebrar o verão e começar a quebrar o gelo no público para os primeiros passos de dança.

Os good boys Stone Dead, também são da Lovers & Lollypops e souberam se comportar em casa, e não se esperaria outra coisa tendo em conta que o fizeram fora de portas, na tour que há pouco tempo embarcaram com os Killimanjaro. Trouxeram rock and roll e nos agradecemos, pois começou aqui a haver um público totalmente diferente, com as primeiras pessoas a fazerem moche. Acabarem um concerto com o DJ Quesadilla a ajudar na cover de T.V. Eye dos The Stooges e a marcar os ritmos da bateria com a pandeireta a bater nos pratos e certamente não havia melhor forma de terminarem.

O último concerto da noite foi de Rizan Said que não precisava de se ter autoproclamado rei dos teclados. É só perguntar a qualquer palhaço e ele diz quem é o rei. Ele é de um verdadeiro génio criador que pega em dois teclados Korg e consegue criar singulares narrativas da musica dabke. Os seus dedos conseguem criar composições aos quais os simples pés não conseguem acompanhar. Continuou a festa entre o público, com danças em conjunto de mãos dadas (de repente até parecia um casamento árabe), danças em círculos e até crowsurf.

Apesar de se escrever sete vezes Pigs, os Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs são cinco (com um vocalista apareceu com visual de quem vai para a piscina do Milhões) e chegaram para darem doses de stoner e sludge, como se isto tudo fossem os artigos de uma lei para a loucura. Deram malhas que são reais pérolas, mas certamente que não foram a porcos porque o público aderiu da melhor forma possível. Ninguém grunhiu porque não é uma banda de grind, mas acabar com o microfone dentro da boca no fim do concerto demonstra o triunfo dos porcos.
A noite terminou com os Djs da Casa, que são Dj Lynce, Quesadilla e Dj Tojo. São djs de comprovado valor, mas como nem toda a gente consegue se soltar das amarras do capitalismo numa sexta, foi preciso rumar para Braga algum tempo depois de começarem. Foi despedir do dia 0 com o triangulo ainda a iluminar no palco Milhões.

Este primeiro dia 0 do Milhões de Festa já foi mais que um excelente aquecimento para o que aqui está para vir. Foi como ir para um restaurante para uma patuscada com os amigos e ficar mais que composto só com as entradas e a bebida à descrição. Mas ainda há mais dias.

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Óscar Santos (texto)

Rafael Carvalho (foto)

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