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Memória de Peixe: a música vale por si própria

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“Himiko Cloud” não é só um disco, é um mundo de fantasia composto por aventuras, super-heróis, cometas solitários e odisseias espaciais. “Himiko Cloud” também não é só o segundo disco da dupla Memória de Peixe, é uma afirmação da maturidade do jogo de rock-jazz- modernista que Miguel Nicolau e Marco Franco andam a construir há cerca de 2 anos e que, neste grupo de canções, transcende a música.

 

Passaram-se 4 anos desde o vosso primeiro trabalho de estúdio (editado em 2012). Porquê um período de pausa tão grande? O que mudou desde então? Houve alguma diferença no processo de composição ou alguma influência nova de destaque?

Passou tão depressa que nem demos conta, na verdade foram dois anos a tocar o primeiro disco e dois a preparar o próximo (este). Pelo meio deu-se uma mudança de line-up (Nuno Oliveira para Marco Franco) que naturalmente trouxe mudanças a nível sónico e a nível de processo de trabalho. Creio que o factor decisivo foi o facto de termos composto música a partir de imagens ou de histórias; há muitos imaginários partilhados relacionados com o cosmos, sonhos, do gosto pelo cinema (nos seus variados géneros), cartoon e B.D., jogos de computador, histórias fantásticas (umas mais místicas do que outras)… Estas influências acabaram por funcionar como uma ferramenta de composição, pois existe um background imagético que influencia a música. Esse era o mote para a criação. Claro, aliando tudo isto à ferramenta habitual do loop mas também a uma certa desconstrução do mesmo, ou seja investimos também em momentos de ruptura com a matemática imposta, investindo também em mais momentos de duo orgânico. Assim sendo, a partir do momento em que o Andy Singleton aceitou fazer o “Himiko” (uma escultura feita em papel) tudo passou do sonho para o real e muito rapidamente este passou a ser a figura central de todas estas histórias. “Himiko Cloud” acabou por ser o habitat metafísico e fantástico que o Carlos Gaspar pintou e contextualizou nas suas pinturas, influenciadas pelas nossas histórias. Foi um processo muito moroso mas muito saboroso.

2. “Himiko Cloud” é um nome curioso e remete para o cosmos. A que se deve esta exploração do espaço sideral? Encontraram aí a inspiração necessária para compor as estórias que contam com a vossa música, neste trabalho? Ou a decisão prende-se mais com o facto de pretenderem mostrar que conseguem explorar diversos “universos” sonoros com a vossa assinatura musical?

O cosmos é uma temática pela qual nutrimos grande curiosidade; as origens da vida, dos planetas, o mistério que existe por detrás de toda esta imensidão de questões e respostas por descobrir. Mas também a subversão desse conceito e a fantasia aliada a um certo teor científico. Himiko Cloud (protogaláxia), SuperCollider (a nossa homenagem ao C.E.R.N. e às novas descobertas), Immortality Drive (cápsula do tempo numa nave Soyuz encapsulada na I.S.S. com ADN humano, pronta para viajar para o espaço no caso de uma catástrofe), Haverõ’s Dream (alusivo ao meteorito com superdiamantes que caiu em Haverõ, Finlandia), por aí fora. É nessa fantasia e recriação que encontramos este disco e os seus processos. Fomos à procura de ser guiados por esta temática e foi super-interessante para nós aliar a música a estes conceitos. Acaba por ser um álbum talvez um pouco mais conceptual e assumidamente diferente em todos os processos e muito ligado à parte imagética, o que na minha opinião realça uma certa característica sonora que talvez seja reconhecível, mas que é mutável e imprevisível, da mesma forma que as pessoas que a compõem também estão em constante mudança (dentro do que é saudável , como é óbvio)

 

Aparte de tudo isto, acreditamos que a música vale por si própria e os suplementos não são necessariamente obrigatórios à compreensão do todo.

3. O vídeo do vosso primeiro single marca o início de uma série de conteúdos multimédia que ilustram o universo dos Memória de Peixe e do novo trabalho. A que se deve esta abordagem mais completa (em termos estéticos e visuais)? Sentem que tal é necessário para a percepção deste novo trabalho, ou apenas um complemento interessante?

Neste caso, existem várias opções de leitura, criar essas camadas foi algo que nos deu muito gozo a fazer. Quisemos fazer um disco multidisciplinar, que à medida que fosse descoberto, novos pormenores aparecessem e se interligassem. Por exemplo, a “Horsepedia” está representada na capa com um cavalo a puxar um avião, uma montanha e um lago. Quando sair o vídeo, irá perceber-se o porquê da existência desses elementos, pois a história não só foi criada antes da própria música como antes de qualquer elemento gráfico. Ou seja, fazemos referência a elementos que à primeira vista poderão não significar muito, mas que ganharão duplo sentido posteriormente, pois fazem parte de uma ideia maior. Portanto, na maioria das músicas, o processo de composição começou em histórias e foram sendo complementadas com música e imagens, o que para nós foi muito estimulante e vibrante ver nascer. Sabemos que vivemos numa altura em que tudo é muito imediato e a música (mais no caso de uma álbum) por vezes nem chega a ser consumida como todo, tal é a velocidade e quantidade de informação. Essa velocidade por vezes ilude a nossa noção de conhecimento de uma determinada obra e há álbuns que não são feitos para serem ouvidos à primeira. Fizemo-lo conscientemente e é uma procura de algo que também nos caracteriza enquanto ouvintes; não é um produto tão imediato e de consumo tão directo. Com tudo isto, também não dizemos que isto é completamente diferente e é a invenção da roda; é apenas a nossa interpretação. Aparte de tudo isto, acreditamos que a música vale por si própria e os suplementos não são necessariamente obrigatórios à compreensão do todo. Não é como uma série de televisão em que se falharmos um episódio, temos a sensação que perdemos algo fundamental, pois as histórias entre si não estão todas interligadas. É um conjunto de histórias dentro de um imaginário comum de fantasia. Assim sendo, as pessoas poderão sempre criar as suas próprias imagens. Mas talvez estes elementos sejam um suplemento que enriquece a perspectiva dessas histórias e para nós foi um desafio complementá-la desta forma. Em suma, temos a participação de Carlos Gaspar, pintor que materializou estas ideias em várias pinturas (capa em forma de mapa desse cenário onde estão presentes todas as músicas) com edição exclusiva de 500 unidades em vinil, Andy Singleton (que criou a escultura em papel “Himiko”- o peixe-voador) os vídeoclips (realizados por mim, com a direcção fotográfica de João Monge, 3D de Rui Cipriano) e a parte de vídeo-live (Gonçalo Santos) que criou conteúdos que acompanham o show ao vivo.

4. Vão ser uma das bandas portuguesas a tocar  no Eurosonic – festival de música em Groningen, que terá Portugal como país de destaque. O que é que isto significa para os Memória de Peixe, banda, e para vocês [Miguel Nicolau e Marco Franco] enquanto músicos?

A música Portuguesa está a passar uma fase fantástica e é pena não irem muitos mais projectos que merecem também estar a representar o nosso país. Mas não é só uma questão de representatividade, no fundo o Eurosonic é uma mostra de música dentro de uma lógica de mercado actual. É óbvio que estamos gratos pela oportunidade e iremos apresentar o nosso trabalho a um público internacional – que estará certamente receptivo a novos formatos – pelo menos, assim o esperamos.

POR INÊS SOUSA VIEIRA

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