curlymess.pt

Meg Stuart: a exaltação do presente da memória

in Arte+Cultura by

Por Teresa Vieira

Everything you see is real. Every frame, every second. Everything you see is real.

Freud recorreu à associação livre, como uma técnica de diagnóstico de pacientes. Esta técnica focava-se na libertação das regras formais de discurso, de pensamento, procurando incentivar a livre associação de ideias pela parte do paciente: a estrutura lógica e básica, impingida pelo sistema, desliga-se e liga-se a verdadeira – dentro das possibilidades – expressão emocional e discursiva do paciente.

O paciente liberta-se e o seu discurso revela-o na sua forma mais pura e vulnerável.

I think that changing one’s mind is one of the best things.
Hunter é o nome do novo projecto da bailarina/coreógrafa norte americana, que esteve no Teatro Maria Matos, em Lisboa, com lotação esgotada e filas de espectadores a ansiar pela desistência de reservas, a partir das 21:00.

I mean, imagine: all the things that are happening, changing, life moving, more information that we get..

A perturbação inicial da entrada no Teatro – procurando o lugar ideal, esperando para que as outras pessoas decidam qual será o seu lugar, deslocando-nos para o nosso lugar, sentando-nos, tirando os casacos, conversando sobre o quão instável é a plateia – impediu grande parte dos espectadores de se aperceberem de que a performance começou desde o primeiro momento em que pisaram o interior da sala. Meg, sentada num canto do palco, faz colagens que são projectadas para um conjunto de tecidos. Corta, cola, roda. Imagens da sua vida, imagens de vidas que não a sua, imagens de um passado sempre presente. Corta, cola, roda.

As luzes focam a atenção para o palco.

hunterciris_janke_1446054622

Imagine: we remaining always the same?

Muitos artistas, particularmente nos anos 60 – com a explosão do avant-garde – partiram da técnica da associação livre para quebras de narrativa, para explorações não literais dos objectos. Na área do cinema, Jonas Mekas, diarista lituano, utilizava – e utiliza – a associação livre na montagem dos diversos pedaços da sua vida. The Judson Dance Group – com artistas como Yvonne Rainer e Trisha Brown – utilizava a associação livre, pelas improvisações criadas em espaços não-ortodoxos, que permitiram a criação de uma dança que não se seguia pela narrativa clássica, e que abria novos caminhos para a dança contemporânea.

Always the same?

Meg Stuart tem diversas influências, que, mesmo que fossem não reveladas, se tornam evidentes a partir da forma como utiliza o espaço e o seu corpo para a sua performance. As ideias de Mekas, de Trisha Brown, e de diversos elementos do avant-garde invadem o público, numa nostalgia de algo que revolucionou a arte no seu todo, mas que é, igualmente, o nosso presente. A comunicação entre seres humanos é tendencialmente realizada através de uma estruturação lógica – impingida pela cultura em que se encontram inseridos -, de forma a possibilitar a compreensão entre os mesmos.

Mas será sempre necessária esta estruturação?

Os sonhos não têm uma linha estruturada. As memórias não têm uma linha estruturada. Meg Stuart utiliza o seu corpo como um médium, que recebe – e, por vezes, procura controlar – as memórias da sua vida, e as memórias da vida dos que a rodeiam. Os fantasmas do passado, do presente e do futuro invadem o seu corpo, descontrolado, num frenesim imagético, corporal e sonoro que desperta inúmeras emoções no público.
Medo.

Felicidade. Desconforto. Saudade.

O descontrolo dos movimentos do corpo, a estabilização do corpo, a exploração do interior de alguém que não conhecemos e que, no entanto, não poderíamos conhecer melhor.

Not changing our mind on anything?

Não são somente movimentos: são expressões puras de sentimentos, despertados pelas memórias e pensamentos.
Não são somente movimentos: é um eterno retorno da memória para a realidade.

Não são somente movimentos: Meg introduz-se ao público, e fala daquilo que lhe atravessa a mente. Atrás de uma das cortinas, diz-nos que é tímida, e que, como tal, tem dificuldade em se dar a conhecer às pessoas, mesmo aos seus amigos.
Mas não a poderíamos conhecer melhor: o público viu, sentiu, e acompanhou o reviver de diversos momentos e pensamentos de Stuart.

Como Mekas, apresenta um diário de memórias, na sua própria lógica – a narrativa mais pura, mais sentida, mais sincera. Como ela própria, no seu estado mais vulnerável, exalta a metamorfose do corpo, da vida – no filme “Waking Life”, dizem-nos que é impossível considerar que não estamos em constante mutação, quando as nossas células se renovam de 7 em 7 anos. Meg está em constante mutação em palco, e mostra-nos como todos nós estamos a mudar. As vozes que nos rodeiam, os lugares onde fomos, as pessoas com quem crescemos, e todos os elementos da nossa vida que nos marcam mantêm-se em nós. Os sentimentos de ontem podem ser tão ou mais fortes hoje. Mudamos, mas mantemo-nos os mesmos, e somos o resultado de todas essas vozes, lugares e pessoas.

Ah, how beautiful it is to change one’s mind.

Memórias ou sonhos, realidades ou ficções, sentimentos ou movimentos.
Meg Stuart partilhou pedaços de si, projectou o seu interior no seu estado mais frenético.

E o público, perante tal vulnerabilidade sincera, sentiu.

Ah, how beautiful.

hunterciris_janke2_1446054639

Imagens: ©Iris Janke

Licenciada em Som e Imagem e Mestre em Design de Som a música fala por si. Figura incontornável do panorama jornalístico musical, destaca-se pelas suas entrevistas, pela presença em concertos e festivais e pela colaboração no programa Portugal 3.0 de Álvaro Costa na RTP2.

Últimos

eu tu elas

EU, TU, ELAS

Eva Ribeiro estreia-se no mundo dos livros, mais concretamente, no erotismo literário
CONVERSAS PARA LÊ-LAS

(h)à conversa…

CONVERSAS PARA LÊ-LAS é o nome da comunidade de leitura com temática
Go to Top