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Lisb-On (Dia 1): Os islandeses é que sabem andar nisto

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A época alta dos festivais de verão pode já ter terminado, mas desde 2014 a despedida das férias feita no Parque Eduardo VII com o Lisb-On Jardim Sonoro já se tornou uma tradição. Aquele que, no resto do ano, é um local de passagem na lufa-lufa do nosso dia a dia, transforma-se, durante três dias, num jardim harmonioso e bem iluminado onde se pode — e deve, claro — dançar ao som de grandes nomes da música electrónica. Porque a selecção musical, essa, é sempre bem cuidada e criteriosa. No primeiro de três dias de festival, a dupla Kiasmos foi sem dúvida quem dominou o Jardim Sonoro.

São duas da tarde e abrem-se as portas do jardim. O espaço já nos é familiar e as alterações logísticas do ano passado mantêm-se: há mais espaço, não há filas para entrar, e a atmosfera de “isto realmente nem parece que estamos no Marquês de Pombal” continua lá, ano após ano.

A juntar ao palco principal — e único nas outras edições — há agora um palco secundário — o Carlsberg Hillside Stage — situado numa zona mais recôndita do recinto, sem sobreposições de concertos e sem interferências de som dignas de feira com carrinhos de choque, como acontece em festivais de maior dimensão.

Com curadoria da Red Bull Music Academy, o primeiro dia começou com Space Machine, um super-colectivo de ex-participantes da RBMA portuguesa, que já conhecemos a solo de outras andanças. São eles Rui Gato, Bruno Mushug, Jorge Caiado, Papercutz, MMMOOONNNOOO, Ghost Wavvves e GPU Panic.
Cada um com o seu estilo bem vincado, esta crew improvisada recebeu muitíssimo bem quem ia chegando ao jardim, ainda que o horário vespertino a um dia de semana tenha dificultado a vida a muitos dos que só conseguiriam chegar mais à noite.

Uma das grandes particularidades do Lisb-On Jardim Sonoro é a forma como consegue casar djsets com concertos ao vivo, sem grandes dissonâncias e distribuindo os nomes do cartaz em jeito de crescendo: começar a tarde em modo chill-out e acabar a noite com ritmos acelerados.
É dividindo a sua atenção entre os synths e o seu saxofone que Étienne Jaumet sobe ao palco, já perante uma plateia mais composta. Étienne Jaumet é parte integrante da dupla de electrónica Zombie Zombie, junto com o seu comparsa Cosmic Neman, mas a solo explora várias sonoridades mais jazzísticas que conseguiram arrancar os primeiros passos de dança da tarde.

Foi já sem luz do dia que Kiasmos subriam ao palco. A dupla islandesa prima pela versatilidade das suas criações: tanto os conseguimos ouvir como banda sonora para uma concentração máxima numa tarde de trabalho, como numa pista de dança com os graves no máximo. Resulta sempre. Janus Rasmussen e Ólafur Arnalds conseguiram conquistar toda a gente logo nos primeiros beats, e apesar de algumas oscilações de ritmo menos felizes ao longo do set, foram claramente os vencedores da noite. Gostávamos de saber qual o segredo dos islandeses para fazerem tão boa música (vá, pelo menos a que nos chega), mas no caso de Kiasmos, a resposta é óbvia: ambos se divertem muito a fazer música. Isso sente-se e reflecte-se em palco.

Ficou a cabo de Sven Väth fechar a noite. Com um gato de loiça junto aos pratos (seria alguma homenagem a Bordallo Pinheiro?), Väth é um dos grandes há já vários anos, pelo que seria muito difícil — impossível até — apresentar-nos um mau set. Sempre com boas cadências, transições exímias e beats au point balançando entre o techo mais cru e umas piscadelas de olho ao transe, a actuação de Sven Väth pecou apenas por saber a pouco para todos os que, muito provavelmente, estavam ainda a começar a noite. Mas nada de grave, porque afinal de contas, este foi apenas o início de um fim-de-semana com muito para ouvir e dançar.

À semelhança de anos anteriores, existem ainda algumas falhas de logística, como por exemplo o sistema de carregamento de pulseiras e cartões para consumo nos bares a revelar-se pouco prático — contrariando as suas intenções — e nada querido por parte do público impaciente. Ainda assim, no final da noite e depois de tanto dançar, tudo acaba por ser perdoado. Afinal de contas, antes estar na fila do bar do que na fila das finanças, não é verdade?

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Joana Esperança Andrade (texto)

Inês Albuquerque (foto)

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