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Linda martini: a sirumba joga-se no Coliseu

in Entrevistas/Música by

Os Linda Martini lançam hoje, dia 1 de Abril, o seu mais recente trabalho de estúdio, Sirumba.

Já disponível na internet desde dia 25 do mês passado, chega hoje às lojas o quarto disco dos Linda Martini. Não obstante a conotação brincalhona do dia das mentiras, sabemos que André Henriques, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Pedro Geraldes não pretendem trapacear ninguém. Muito pelo contrário. Talvez fosse a vontade de mostrar a verdade que há neles que os tenha feito abrir as portas do seu ensaio geral à imprensa na passada quarta feira, na Sala TimeOut, no Mercado da Ribeira.

Foi num ambiente descontraído que os quatro músicos tocaram em palco, perante o escasso auditório que os observava de forma atenta, algumas músicas do seu novo trabalho.  Sem grandes contratempos nem falhas – apenas uma ou outra indecisão no alinhamento (“Nós no sábado vamos saber o que tocar!”, brincou Hélio Morais) – o que se dizia ser ensaio geral mais parecia um pequeno concerto privado para aqueles que ali se encontravam. 
De facto, mais do que assistir aos preparativos técnicos do espetáculo a acontecer amanhã, dia 2 de Abril, estávamos ali para ter cheirinho do que acontecerá no palco do Coliseu de Lisboa. E foi sem dúvida uma amostra que deixou a vontade de ouvir e ver mais – que o digam as duas fãs que haviam ganho a possibilidade de testemunhar o momento, e que, no final, nos vieram confessar o seu agrado pela experiência.
Houve ainda tempo para uma conversa bem disposta com a banda, onde se falou da evolução dos Linda Martini, do som do novo álbum e do concerto a acontecer no Coliseu dos Recreios – primeira vez da banda a pisar o palco daquela sala de espetáculos.

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Disseram recentemente numa entrevista que o Sirumba, não sendo um prolongamento do disco anterior, é uma continuação do vosso trabalho. Isso é, aliás, bastante verificável na nova sonoridade, mais rica e assente em subtilezas que contrastam com as vossas origens punk e hardcore. Foi algo pensado?

André Henriques: Pensado não foi, acabou por ser assim. Como em todos os discos, nós não nos sentamos e fazemos uma reunião antes a definir ao que vai soar… As coisas acabam por ser por reação. Vamos à sala de ensaios, acontecem uns riffs…
Pedro Geraldes: Eu acho que pensámos um pouco…
Cláudia Guerreiro: Pensámos no sentido de que sabíamos que queríamos uma coisa diferente.
André: Ah, isso sim, mas não foi nada planeado no sentido de querermos fazer um disco completamente fora – como referiste – da questão do punk. O que de facto aconteceu foi termos feito a “Dez Tostões”, uma música que acabou por não entrar no disco e que já tinha um bocado disso que estavas a dizer…mais “espaço”. Isso acabou por dar o mote. Independentemente de não ter havido uma reunião antes, acho que a ideia geral era essa, a de ser fixe e possível fazer uma coisa que se calhar não está sempre no vermelho, lá em cima, mas continua a soar a nós ou ir buscar aquela  que nós costumamos ter, aquela melancolia, aquela coisa mais introspetiva…Encontrar um caminho diferente. Se calhar a “Dez Tostões” acabou por abrir isso e depois as outras músicas foram um pouco também nessa inspiração, mas não houve nada pensado…Foi apenas uma forma de fazer as coisas. Desta vez saiu assim.

Quiseram propositadamente romper com as canções “à flor da pele” e apresentarem-se enquanto uns Linda Martini mais “adultos”?

Cláudia: Não, acho que não é isso…Acho que é uma coisa que acontece naturalmente no teu crescimento enquanto indivíduo e, neste caso, enquanto banda.
Hélio: Até porque, na nossa discografia, o próprio “Marsupial” já é um disco com muito mais espaço. Portanto não acho que tenha que ver com maturidade ou com idade….
Pedro: Exato. Essa parte então não é mesmo pensada. Quando eu há pouco estava a dizer que se calhar pensámos um bocadinho na sonoridade, foi no sentido de acabarmos por tomar decisões mais harmoniosas…Não ir aos mesmos recursos do passado.

O Sirumba nasceu em 2015, ano em que todos os elementos da banda estiveram envolvidos noutros projetos paralelos, quer a nível profissional quer pessoal. Sentem que isso influenciou o vosso processo criativo? Gerou conflito?

Hélio: Tudo influencia. Eu não diria conflito, diria mais um estímulo. A partir do momento em que trabalhas com outros projetos e outras pessoas tens de sair da tua zona de conforto, e nós os quatro temos uma zona de conforto própria. A partir do momento em que cada um acaba por fazer parte de outros projetos, acaba por sair dessa zona de conforto e conseguir ir buscar valências de outro tipo. Agora, em termos de influências diretas de sonoridade ou líricas, acho que não [influenciou].
Então conflito não será a palavra certa…
Pedro: Foi mais estímulo do que conflito.
Hélio: Ya, sim, é isso.

Entre o Turbo Lento (2013) e este recente Sirumba (2016) meteram-se dois anos em que os Linda Martini nunca deixaram de estar ativos. Entre variadas colaborações que fizeram com outros músicos, marcaram ainda presença em três noites no MusicBox (Março de 2015), onde tocaram, na íntegra, os vossos três álbuns de estúdio. Acham que estes concertos de revivalismo são mais uma “prenda” aos fãs ou uma “prenda” aos próprios músicos, que terão assim oportunidade de tocar ao vivo material nunca antes tocado?

André: Como tudo, aquilo também não foi pensado. Aconteceu porque os discos estavam esgotados e nós fizemos reedições: as pessoas pediam e a questão era puramente termos os discos em loja. Na mesma altura, o MusicBox convidou-nos para fazer uma residência – algo que também já tinha feito com outras bandas – e que implicava três noites que nós tínhamos de ocupar ou preencher com aquilo que quiséssemos…E na altura pareceu-nos uma coisa engraçada. Íamos fazer reedição dos discos e havia muita coisa que não tocávamos há muito tempo – e outras que nem nunca tínhamos tocado ao vivo – e pensámos “Bora pegar nisso e fazer isso nas três noites”. Mas foi um acaso! A ideia não foi fazer uma coisa porque gostamos muito de celebrar o passado ou…
Pedro: …Sim, mas apesar de não ser planeado foi fixe porque, no decorrer dos tempos, temos deixado músicas para trás e tivemos a oportunidade de tocar a discografia toda. Como o André estava a dizer: não foi pensado, mas o facto de o termos feito foi fixe. Essas três noites estiveram esgotadas.

Acham que esgotar uma sala para tocar um disco antigo consegue ser um statement mais poderoso do que esgotar uma sala para apresentar um disco novo?

Cláudia: Não acho que seja statement nenhum. É bom sinal, quer dizer que as pessoas gostam essencialmente da banda e que no fundo há público para todos os teus álbuns. Se calhar as pessoas que foram ao primeiro dia não foram ao último. Mas também houve com certeza gente que se repetiu….
André: Sim, e a verdade é que o MusicBox também é uma sala pequena…
Cláudia: Para duzentas ou trezentas pessoas.
Hélio: Sim, somos capaz de ter posto novecentas e tal pessoas nos três dias, mas como algumas repetiram…
Cláudia: Exato…não vejo aí nenhum statement.

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E enquanto músicos e fãs, como encaram estes concertos de revivalismo?

André: É giro. Agora até há muitas bandas que têm ido a festivais tocar coisas na íntegra. Isso pode ser engraçado. Se calhar faz sentido para bandas que têm muitos álbuns e anos de carreira, e de alguma forma têm um disco mais icónico ou que as pessoas conheçem mais. E isso pode ser engraçado. Enquanto fã, posso achar piada a uma coisa dessas, mas no nosso caso não foi mesmo essa ideia de celebrar a nossa carreira. Foi um acaso.

Vão subir pela primeira vez ao palco do Coliseu dos Recreios já no próximo sábado, dia 2 de Abril. Chegar a uma sala como esta foi algo que sempre tiveram em mente?

Pedro: Nós fomos tocar o Turbo Lento à Sala Tejo e a verdade é que Lisboa não tem muitas salas médias. Se calhar o Armazém F…Mas não há muitos sítios. O MusicBox é pequenino, a ZDB também…O Santiago Alquimista também não é assim muito grande.
Hélio: Também tens o Lux…
Pedro: Sim…E depois das experiências que tivemos quisemos arranjar uma sala que fosse bonita e que…
Hélio: …E que desse para duas mil pessoas.
Cláudia: Eu tenho a sensação que as pessoas têm a sensação que ir tocar ao coliseu ou a outras salas surge-nos por convite, e não é! Eu acho que isso é romantizar um bocadinho a questão…Quando marcas um concerto destes, és tu que procuras a sala, portanto é uma aposta da parte da banda e de quem faz o concerto. Somos nós que estamos a marcar, portanto o risco é todo nosso…Estamos a apostar, e pelas pessoas que costumamos ter nos concertos, decidimos arriscar e ver…Esperamos ter gente! Mas é isso…É mais uma aposta da banda, não é propriamente uma aposta do Coliseu. Quando perguntam “Ai, e isto de chegar ao Coliseu, nunca pensaste…” Opá…não é propriamente um “chegar”…
Hélio: Qualquer pessoa pode chegar.
Cláudia: Ya…Corres é o risco de não encher a sala, mas isso é algo a que todos estamos sujeitos…
Hélio: Sim, convém que quando apostas numa sala dessas teres uma base de fãs suficiente para compor a sala.

Nesta ordem, lanço aqui um dilema na onda do jogo do “Preferias”, não sei se conhecem…

Todos: [risos] Nós sabemos.
Então, e de forma simples: Se tivessem que escolher entre uma sala pequena e mais intimista e uma sala maior e com mais nome, enquanto sítio onde tocar para sempre, porque qual optariam?
Pedro: Para sempre? Epá, as duas têm vantagens e desvantagens…
Hélio: Mas as salas grandes estavam sempre cheias?
Sempre, sempre não. Mas “compostinhas” sim.
André: Epá, se não tivessem sempre cheias, preferia tocar nas pequenas sempre cheias. Isso assim é muito difícil, cada concerto é um concerto. Tens concertos que à partida têm tudo para resultar e ou nós podemos não estar no vibe nesse dia ou as pessoas que estão lá podem não dar o maior feedback e as coisas não correm bem, ou vice versa. O espaço claro que é importante, mas não dita aquilo que vai acontecer ali. O que dita é a energia e a troca de energias.

Porquê “Sirumba”  para nome do novo disco? É devido ao jogo infantil de polícias e ladrões?

Pedro: É!

E podemos retirar daí é alguma interpretação mais conceptual? Talvez uma crítica a uma sociedade moderna, ou, pelo contrário, o evocar de uma infância que ficou para trás…

Pedro: [risos] É o que tu quiseres! Já tens aí tantas interpretações, pelo menos duas interessantes…
André: Mas antes de ter sido escolhido para nome do disco, é o nome da primeira música, ou seja, assentou primeiro na música e só depois é que nos lembrámos de colar o conceito ao disco. Mas não tem assim uma grande, grande explicação. A letra surgiu também dessa vontade de ir buscar coisas do nosso passado e essa sirumba era uma coisa que nos unia a todos. Foi um conceito engraçado e gostámos da própria sonoridade da palavra. Aparece por causa disso. Não há nenhuma lógica conceptual nem é uma coisa de polícia e ladrão, até porque nós não chamámos ao disco “polícia e ladrão”.

Para última questão: o que podemos esperar do concerto de sábado?

Pedro: As nove músicas do Sirumba, mais algumas antigas…E os quatro em cima do palco!
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Por Inês Sousa Vieira

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