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(h)à conversa…

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CONVERSAS PARA LÊ-LAS é o nome da comunidade de leitura com temática lésbica, aberta a todas as pessoas, em funcionamento no Porto desde Maio de 2012, no contexto do Projeto “Porto Arco-Íris” (ILGA Portugal). Este mês de Março as Conversas visitaram a Confraria Vermelha para conversar sobre o livro Carol de Patricia Highsmith. Vamos conversar um pouco com Helena Topa e Matias Braga, dinamizadoras do grupo, sobre a sua leitura de Carol.

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Como surgiu a ideia de formar esta comunidade de leitura?

Helena e Matias: A ideia de organizar uma comunidade de leitura, sem qualquer temática específica, já tinha sido considerada entre nós. Um dia, fomos a uma Feira do Livro LGBT, no Porto, organizada pelo projecto Porto Arco-Íris da Ilga, cujo coordenador era o Telmo Fernandes e pensámos que o poderíamos fazer, mas apenas com textos de e sobre amor entre mulheres. Nessa altura, andávamos também a ver que associações existiam e que iniciativas tinham para mulheres lésbicas. O panorama que encontrámos não foi muito animador e lembrámo-nos de juntar a nossa vontade e a nossa formação/experiência na área da literatura à criação de uma comunidade de leitura com todo o tipo de textos de temática lésbica.

Onde e quando ocorrem os encontros?

Helena e Matias: O nosso local de eleição, desde que começámos em maio de 2012, é a Associação Cultural Cadeira de Van Gogh, um espaço sossegado e muito acolhedor, onde, devido à generosidade e excelente acolhimento do António Domingues, continuamos a realizar encontros nos segundos sábados de cada mês, entre as 16h e as 18h, de setembro a julho.

Carol foi rejeitado pela editora da Patricia Highsmith, o que fez com que o livro tivesse sido editado mais tarde, como um romance pulp de 25 centavos numa edição foleirita e com uma capa que dá vontade de cortar os pulsos. Foi editado com o título The price of salt e com o pseudónimo de Claire Morgan. Highsmith queria descobrir como é que as leitoras e leitores reagiriam ao seu livro sem ser influenciad@s pela orientação sexual ou status da sua autora. De forma imediata o livro arrasou à grande. Vendeu mais de um milhão de cópias, esgotou a primeira edição e dizem os rumores que influenciou autores como Nabokov.. não demorou muito tempo Highsmith tinha um clube de fans em seu redor que lhe enchiam a caixa do correio, agradecendo-lhe pelo livro e por lhes dar esperança numa época muito pouco ou nada gay-friendly.

Quais os motivos que levaram a escolha deste livro para as Conversas?

Matias: A escolha deste livro tem uma história que remonta há dois/três anos atrás, quando a Helena arranjou uma tradução. Infelizmente, essa tradução era de qualidade duvidosa, de tal forma que, quando a Helena leu o original em inglês disse-me que lhe parecia ter lido outra história. Nessa altura pensámos “Este romance está mesmo a pedir uma nova tradução.” Há poucos romances bem escritos sobre amor entre mulheres e este é um excelente exemplo de literatura cuja escrita nos agrada e com temática interessante e totalmente enquadrável no contexto da temática das Conversas Para Lê-las.

Helena: Eu tinha lido, de facto, o livro há cerca de três anos e, nessa altura, achei logo que, mais tarde ou mais cedo, teríamos de dedicar-lhe uma sessão. Para além de ser citado frequentemente como um clássico da literatura lésbica, parece-me que é um livro muito bem escrito, com personagens complexas, abordando a relação entre duas mulheres, em todas as suas facetas, de uma forma muito moderna para a época em que foi escrito, o princípio dos anos 1950.

Vamos ver se são devoradoras de livros, quando começaram e acabaram a vossa leitura?

Matias: 20 dias, com outras leituras de permeio, como é costume.

Helena: Para ser franca, não me lembro bem, porque li outras coisas ao mesmo tempo, mas creio que esta releitura me levou talvez uns 20 dias também.

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Parece que Carol não foi, não é e nunca será como outros livros. Parte da sua magia está na simplicidade e na universalidade da sua história e por outro lado, tem esse toque especial que existe nos bons livros e que é impossível explicar por palavras. Eu não consigo! Duas pessoas encontram-se por acaso e vão conhecendo-se, uma a outra e a si mesmas. E já está! Nem mais nem menos. Qualquer pessoa podia, pode e poderá identificar-se com estas personagens independentemente do lado da cama em que está a ler… se não o fazem é porque não lhes corre vida nas veias… vivem uma vida sem sal!

Qual vossa passagem ou passagens preferidas? Aquela que tem mais sal? Porquê?

Matias: Como vi o filme antes de ler o livro, gostei de ver aquilo que era original da narrativa e agradou-me o tom menos delicodoce da obra e com uma série de ingredientes típicos do romance policial e de suspense. As passagens com mais sal foram para mim aquelas em que parecia haver um crime iminente a ser perpetrado por Carol em relação a Therese; as que demonstram como é vista a homossexualidade na época (nomeadamente, no caso das mulheres) e os momentos de maior intimidade e cumplicidade entre Carol e Therese.

Helena: Gosto especialmente do início do penúltimo capítulo, porque, para além de ser belíssimo, poético mesmo, foi para mim aquele momento “aha!”, em que finalmente percebi de onde vinha o título O Preço do Sal. Deixo aqui a minha tradução (para fazer o gosto ao dedo): “A meio do quarteirão, abriu a porta de um café. Estava a dar uma das canções que ela ouvira em todo o lado com Carol. Fechou a porta e continuou a andar. A música estava viva, mas o mundo estava morto. Também a canção morreria um dia, pensou Therese, mas como podia o mundo voltar alguma vez à vida? Como voltaria o seu sal?”

Este livro sugere a leitura de…

Matias: Outros romances bem escritos sobre relações de amor entre mulheres e que não acabem tragicamente. Algum livro sobre como era vista a homossexualidade entre mulheres nos anos 50 nos EUA (de qualquer género literário – estudo, ensaio, romance, contos)
Os Homossexuais no Estado Novo, São José Almeida, que retrata e contextualiza muito bem a mesma situação, mas em Portugal.

Helena: Os clássicos, como este livro é, acabam por ser transversais e suscitar leituras em vários quadrantes. Neste caso, claro que a temática da relação entre mulheres está em primeiro plano e pode sugerir a leitura de outros livros semelhantes, desde O Poço da Solidão de Margaret Radclyffe Hall (sem tradução portuguesa, e que ainda não li) até à novela gráfica de Alison Bechdel Fun Home. Mas, na minha perspetiva, é um livro que podemos colocar a par de qualquer outro em que a temática da viagem e das relações amorosas estejam presentes.

Outras obras da autora que gostassem de destacar.

Helena e Matias: Só lemos os Pequenos Contos da Misoginia, que, na nossa opinião, vale muito a pena ler, todos eles. E conhecemos, através da adaptação cinematográfica, O Talentoso Mr. Ripley.

Neste momento o que andam a ler?

Matias: Onde Estiveste de Noite, Clarice Lispector (contos); O Sexo Inútil, Ana Zanatti

Helena: Estou a ler os Laços de Família, de Clarice Lispector (contos), a pensar na próxima sessão das “Conversas Para Lê-Las”, dedicada à temática do género. E estou a ler um livrinho de poemas do ghetto de Varsóvia A morte demora antes de chegar, porque vou fazer a apresentação da obra.

Com a celebração do 30o aniversário de um dos mais prestigiados festivais de cinema LGBT, o BFI Flare: London LGBT Film Festival, um grupo de uns 100 entendedor@s em cinema reuniram-se e findaram, através de votação, que Carol de Todd Haynes, é o melhor filme LGBTI de todos os tempos, ficando à frente de filmes como Brokeback Mountain, A vida de Adèle, My Beautiful Laundrette, Tudo sobre a minha madre ou Morte a Venezia. Ouvi dizer que organizaram um concurso para oferecer uns bilhetes? Como foi esse concurso? E que organizaram também uma ida ao cinema com as pessoas que costumam participar nos encontros? Como foi?

Helena e Matias: O filme estava prestes a estrear e pensámos: “Porque não juntarmos as pessoas que têm vindo a participar nos nossos encontros e ir à estreia do filme?” Numa sessão das Conversas decidimos que ofereceríamos dois bilhetes a quem escrevesse uma frase sobre visibilidade lésbica, não tinha que ter a ver com o romance ou com o filme necessariamente. Depois, lançámos o concurso na página do Facebook das Conversas Para Lê-las e surgiram

ideias muito interessantes. Queríamos encher uma fila da sala de cinema, mas no total e em sessões diferentes, ainda fomos 7 pessoas, o que já não foi nada mau : )

Querem acrescentar alguma coisa?

Matias: Esta comunidade de leitura tem-me proporcionado muitos momentos que me dão um gozo enorme, desde a escolha de textos à decisão dos melhores momentos do ano para cada texto, à preocupação para não fazer coisas semelhantes em sessões próximas até à preparação de cada sessão com a Helena (um dos melhores momentos) e à concretização dos encontros. Estes são sempre uma surpresa e um grande desafio, porque nunca sabemos o que vai sair dali. Em geral, ultimamente, as sessões têm-nos surpreendido pela positiva e isso deve-se às excelentes pessoas que aparecem e contribuem para que as Conversas aconteçam.

Helena: Tem sido um prazer para mim, organizar as atividades desta comunidade de leitura ao longo destes quatro anos com o Matias. E tem sido uma revelação conhecer tantos textos, entre romances, poesia, peças de teatro, mas também ler e explorar outros géneros de textos (e não só), como reportagens, depoimentos, documentários, filmes, música, em que a temática lésbica é central. Apesar de nos faltar mais literatura, e boas traduções, de livros que existem já, vamos encontrando coisas que vale a pena ler e dar a ler (e a debater). Por outro lado – e esse se calhar é um dos maiores estímulos e o nosso grande objetivo –, tem sido um privilégio partilhar experiências de leitura quer com as pessoas que, ao longo do tempo, nos têm procurado quer com as pessoas que temos convidado, com as quais vamos estabelecendo laços e cumplicidades.

Forma mais ampla - não sei se fazem aqueles rectângulos, com a cara da colaboradora e uma mini bio, que aparecem as vezes no fim das publicações. Livreira disléxica e bilinguisticamente baralhada que as vezes gosta de fazer que escreve. Promotora da primeira livraria de Mulheres em Portugal, a Confraria Vermelha, onde todas as pessoas que gostam de ler e conviver são bem vindas. Figura incontornável do movimento "Se não há mimos não é a minha revolução" que procura espalhar sororidade e comprovar que os unicórnios existem. Wiiiiiii!!!!!

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