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Cão da Morte, Flamingos, Luís Severo, o trovador lisboeta

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Luís Severo, o cantautor que encanta corações com o seu tom singelo e as suas melodias fora de época, o homem de uma pop melancólica, com versos para exibir, numa entrevista exclusiva para o Curly Mess. Em contexto de Festa Moderna, dia 20 de Fevereiro, no espaço Musicbox Lisboa, onde para além da big band, Modernos, contamos com a presença de José Cid, Luís Severo, Jónatas Pires, Diego Armés, como convidados, para aquilo que será um evento trimestral, com artistas do mais recente lançamento da Cuca-monga discos. Feito que apadrinha todos os artistas, músicos, ligados a esta label tão fresquinha. Capitão Fausto, Modernos, BISPO, Ganso, El Salvador e toda a parafernália do hype lisboeta que se vai construindo.

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Porquê, Luís Severo? Ou melhor, Luís Severo Gravito, é o outrora Cão da Morte, aos 16 anos começou nessa aventura, numa de descoberta, numa de, “vamos lá ver o que sai daqui”, mas agora é Luís Severo, o homem na capa de, Cara d’ Anjo, a sua mais recente concretização. Neste seu percurso inicial notamos um crescimento com o novo registo, de Cão da Morte a nome próprio, Luís começou pelo Myspace, criando um registo nessa plataforma e ir pondo faixas da sua autoria, no qual fosse algo completamente anónimo, e daí a tocar ao vivo foi um salto. “O salto aconteceu um bocado rápido, o que acho que foi uma coisa um bocado má para mim, porque aconteceu algo que eu não estava á espera, que era, algo ser associado á minha cara”, admite.

O processo desenrolou-se e aos 18, 19 anos, já contava com um disco, o qual teve já alguma repercussão mediática, sendo que por volta de 2012, 2013, realiza mais dois álbuns, aqui num registo diferente, “mais lo-fi e menos audíveis, e que me afastaram um bocado desse lado mediático, feito para um circuito mais restrito, mais fechado.”
Em 2015, com o lançamento de “Cara d’ Anjo”, apresenta-se como algo diferente daquilo feito anteriormente, onde a vontade e o desejo era que, “este disco fosse feito com mais calma, e, ou mudava o nome já, ou não mudava, era a última chance, ou neste timing ou não. Era o timing ideal.”
O mais recente registo de Luís Severo, conta com oito composições, e de certa forma algo mais pensado, rigoroso, no qual o processo de construção do mesmo, foi um tanto demorado, impondo-se a si e ao seu ritmo de trabalho, um nível de exigência diferente dos registos anteriores, com data prevista para a sua conclusão no final de Julho do ano passado, Luís passou o seu tempo e o seu Verão passado no estúdio a construir e a corrigir algo que só acabou por ficar finalizado no mês de Setembro, “quando a banda que me acompanhava voltou de férias, já eu tinha mudado aquilo tudo. No fundo, é eu levar a música mais a sério.”, admite.
Ao falarmos de artistas, de músicos, de correntes e contextos, sabemos que há sempre influências por detrás da realização de algo, o que não falta também em Luís Severo, numa visão pessoal, poderia apontar Elliott Smith, e a sua pop arrastada de tom melancólico, mas não só. “Eu pego em muitas coisas, especificamente, roubei teclados ao Leonard Cohen, back vocals aos Beach Boys, ouço um bocado de tudo, nunca senti que estivesse a inventar nada, simplesmente o que há de mais pessoal nelas é mesmo a forma como eu encaro as coisas.”
Otimista por construção, admite ser melhor músico do que sociólogo, de origem de Odivelas, o próprio diz-nos que a ideia de querer ser músico é uma coisa estranha, isto partindo da sua origem, mas realça que o importante é a vida a acontecer, exigente com a sua maneira de trabalhar, sem se descuidar disso, admite-nos que, “este disco não ficou tão bom como eu gostava, as coisas para mim evoluíem quanto mais tempo eu estiver a trabalhar nelas. Enquanto não tinha este disco acabado, também não evoluía.” Cantautor, assim como o icónico Leonard Cohen, o qual aponta como máxima referência e um brilho nos olhos, é considerado alguém importante no seu processo de trabalho e influência, no entanto não é o único. Luís aponta-nos como alguém percursor, a sua mãe, tendo sido esta que lhe iniciou nos trilhos da música. Voltando ao Cohen, aprecia os anos 80 deste mesmo, “conseguiu chegar a um nível em que ele consegue ser ele mesmo. Conseguiu fazer canções que soam logo a Cohen, que podem ser todas iguais, um dia queria poder chegar a isso.”
E tal como Cohen, e outros músicos, sabemos que é fundamental neste espectro, dar uma imagem aquilo que vamos criando, vincar uma figura representativa daquilo que andamos aqui a fazer, daquilo que queremos transparecer, deixar uma marca, conseguindo-o muito bem, pela propaganda do disco, ou melhor, pela fotografia que acompanha este processo, pela mão de Diana de Sá, revela-nos retratos intimistas no seu espaço, diretamente para o meio mais voraz de todos, a Internet. A nível de estética, é algo que nos deixa curiosos, e queremos descobrir quem é então este rapaz franzino, com um ar introvertido em jeito de musa. “Queria que este disco chegasse a mais lados, e nunca tive tão exposto, já que me vou expor a este nível, acho que não me sentia confortável, se não estivesse à vontade.”

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Isto numa tentativa de contrariar os holofotes e exageradas produções fotográficas, chega a tornar-se mais interessante esta promoção do álbum e do artista, de forma tão íntima, parecendo até que entramos no mundo de Luís Severo, ou pelo menos, é esse sentimento de ser intrigante que parece querer suscitar.
Num mundo musical cada vez mais monopolizado pela língua inglesa, é notável quando alguém se afasta dessa  J e abraça o português como primeira opção, segundo Luís, “não foi uma escolha, eu ligo muito ás letras, é das partes que mais valorizo. Não conseguiria se fosse em inglês, particularmente neste disco tive muitos cuidados, no que toca a cantar bem as coisas, em dizer bem as palavras.”
“Santo António”, “Nita”, vistas numa óptica de declarações de amor, enquanto que, “Vida de Escorpião”, em jeito de auto-análise, em versos que nos podemos identificar, “não sou de ninguém”, surge-nos uma contradição, sendo que ao mesmo tempo, tanto quer amar como quer estar sozinho, tanto quer amar, como quer fugir.  “Totalmente, contradição. Fala de relações sim, mas foca-se muito nas questões de confiança, medos, do medo de te apegares a alguém. Hoje em dia não há tanto uma noção definida de família, sentes-te um bocado sem saberes o que queres fazer á tua vida sentimental. Em relação e este disco especificamente, não é só sobre mim, não são tanto questões intímas, não refletem a minha bio. Quando falo, falo de como eu analiso as coisas, como eu pego em histórias de pessoas que me dizem algo. Não é só a ver comigo.”
O espetro musical português começa a revelar-se um tanto competitivo, onde podemos assistir a uma quantidade massiva de projetos em grupo ou a solo a chegar até nós, constantemente, seja pelo bandcamp, plataforma preciosa para artistas que se querem lançar, seja em pequenos eventos a ter lugar em espaços culturais, ainda com pouca projecção, seja pelo youtube, enfim, uma máxima de ferramentas que são usadas para projetar o seu trabalho. Nesse sentido, abordamos o artista, no que toca á sua inserção no espetro musical português, isto porque, o seu registo mostra-se particularmente diferente do que é feito atualmente. Agenciado pela Maternidade, um coletivo de artistas e músicos, e os quais fazem canções como este faz. “Há muitas noções diferentes do que anda a acontecer. Da minha idade, da minha geração há o Éme, as Pega Monstro, não me sinto nada só. Eu quero ouvir a tua noção das coisas, conhecer a noção das outras pessoas, que é mais válida do que a que eu tenho, pois estão de fora. Quando começas a fazer música é quando recorres mais ás influências, quanto mais caminhas em frente, e possivelmente é isso que eu gosto mais do Cohen dos anos 80, é ele ter começado a ser cada vez mais ele e tu entenderes nitidamente que aquilo é exatamente como ele sente a música. (…) Eu quando vou a uma discoteca sinto a música de uma forma diferente, danço arrastado quase, e eu acho que a minha música sempre teve muito isso, ou seja, no fundo, eu tento fazer músicas que me apetece ouvir, o que eu quero cada vez mais é sim, que a minha música seja estranha, e para que essa minha estranheza pessoal seja contextualizada no meio musical, eu tenho que conseguir também que a música que eu faço seja cada vez mais competente, fazer bem o que estou a tentar concretizar.”
Ser coeso, é um dos lemas de Luís Severo, o qual já está a preparar um novo disco, e o qual conta com uma direcção e um rumo um pouco diferentes, “quero que seja mais isso, mais eu, pode ser uma continuação, mas no fundo, ser cada vez menos assustado, mais á vontade com o que sou.”

Tarefa difícil no mundo mediático, sendo cada vez mais difícil ser-se verdadeiro, e essa parece ser a luta com a qual se debate, constantemente, assim como o próprio fato de cantar ao vivo, um medo a confrontar desde novo ou algo natural, surgiu a questão no rol da conversa, isto porque para muitos músicos, isso representa um obstáculo a ultrapassar, quando a timidez é mais forte, quando congelas em frente a uma plateia. No caso de Luís Severo, “sempre tive muito medo, mas acho que estou a ficar finalmente mais á vontade”, e para tal contribuem fatores importantes, primeiro, a questão dos ensaios, “o mais fácil é continuares a ser tu mesmo e no fundo tentares que aquilo seja o mais idêntico possível a como tu és a ensaiar.” Mas também a outro nível, “quando o técnico de som fez um bom trabalho, um bom som, sentes-te á vontade. Quando o técnico não é bom o suficiente, quando não se empenha o suficiente, é um problema.”, “e depois há também o calo, já canto desde os 16 anos, e sinto-me mais á vontade do que nunca. A minha timidez, ou seja lá o que for, é só uma forma de poder ser o que sou.”
Luís Severo Gravito, responsável pelas letras, melodias, guitarras, teclas e voz, Bernardo Álvares no baixo e contrabaixo, Ricardo Amaral na guitarra eléctrica, Luís Barros na bateria e Filipe Sambado na percussão, constituem assim o mais recente registo, “Cara d’ Anjo”, o qual conta também, com videoclipe saído do forno, da música com o mesmo título, onde pode ser visualizado abaixo. Com passagens pelo Musicbox, Damas, Passos Manuel no Porto, e outros tantos espaços, espalhados pelo território luso, conta agora com uma agenda recheada de datas, assim como terá presença marcada dia 7 de Maio, num evento em Lisboa, em jeito de aniversário da promotora de concertos e agenciamento de artistas, Puro Fun, ao lado de artistas como JIBÓIA, Gala Drop e Bispo.

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Entrevista: Joana Sousa Sequeira

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