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Buraka Som Sistema: entre a Europa e o princípio do resto do Mundo

in Entrevistas/Música by

A encerrar amanhã as festas de Lisboa com o seu último concerto e festival por eles organizado – o Globaile -, foi nos Estúdios Time Out que fomos encontrar os Buraka Som Sistema no seu ensaio geral.

Porta-estandartes do nome Portugal no panorama da música eletrónica internacional, nem nos ensaios nos deixaram de contagiar e fazer dançar – uns mais envergonhadamente que outros -, enquanto jornalistas de diversas nacionalidades lhes apontavam as câmaras, testemunhado os preparativos da despedida de uma das bandas nacionais mais internacionais.
Apesar das poucas músicas que se fizeram soar, a pontinha do véu levantado deixou no ar a certeza: sexta-feira será grande, quer para o coletivo, quer para aqueles que se aglomerarão no Jardim da Torre de Belém para dançar pela última vez o “kuduro alternativo” straight outta Amadora.

Falámos com Andro Carvalho (Conductor) e ficámos a saber um pouco mais sobre o conceito de “música eletrónica de cariz global”, o festival Globaile e os planos para o futuro.

Os Buraka Som Sistema vão dar o seu último concerto sexta-feira, dia 1 de Julho, encerrando não só as festas de Lisboa mas também um ciclo de 10 anos. Foi algo ponderado? Completarem uma idade redonda, na qual desse para fazer um balanço de carreira, e pausarem por tempo indeterminado, para se dedicarem a projetos e atividades paralelas (como o caso da Enchufada)?

Não, eu acho que aconteceu muito naturalmente…É muito raro hoje em dia ter bandas que existem há dez anos e ainda conseguem estar ativas a tocar. Quando decidimos que se calhar era altura de parar e cada um continuar com os seus projetos pessoais – e se calhar retomar daqui a uns anos com os pés no chão e com mais certeza daquilo que são as coisas – pareceu-nos bem. Foi agora, mas poderia ter sido há um ano atrás… mas dez anos é uma marca gira!

Disseram já que um dos vossos projetos para o futuro é fazer de Lisboa uma cidade “incubadora da música eletrónica”. Esta vontade de apoiar projetos semelhantes ao vosso é motivada por algumas dificuldades que tenham sentido no início dos Buraka?

Não, não, acho que não tem a ver com as dificuldades, mas sim em perceber que Lisboa tem um potencial muito grande como divisória entre o fim da Europa e o princípio do resto do mundo. E nesse sentido acho que é muito importante criar uma base forte o suficiente para que as pessoas saibam que vindo cá, conseguem criar uma semente forte e boa o suficiente para espalhar o projeto para o resto do mundo. Tens aqui público do planeta inteiro…Portugal colonizou o planeta inteiro! No fundo, é amadurecer o projeto. Nós sentimos, com Buraka, que o facto de ter sido cá trouxe-nos grandes vantagens em relação a espalhar a nossa música pelo mundo todo. Este sol maravilhoso (que agora aparece cada vez menos mas que existe!), que na maior parte dos países da Europa não existe, também faz muita diferença na música que fazemos…A forma como nós vemos e fazemos as coisas…A nossa música é tanto para ser dançada no escuro como na luz! E o facto dos artistas poderem vir para cá, poderem alimentar-se desta energia, verem todo o movimento musical que existe aqui à volta e a forma como tu podes absorver a música toda que se faz e transformar isso naquilo que tu podes apresentar ao mundo tem de ser uma vantagem, e Lisboa é a cidade perfeita para isso.

Utilizam a expressão “música eletrónica de cariz global”. Como é que definem esta etiqueta?

[Risos] Nós vimos de uma geração…Eu pessoalmente, que cresci em Luanda, vim de uma geração em que a palavra World Music representa sempre aquele velhinho a tocar bongo debaixo de sei lá o quê [risos]. E nós, que somos a segunda ou terceira volta dessa geração, sentimos que isso não representa aquilo que nós somos…Eu cresci a ouvir muito hip hop e muita música eletrónica que chegava da Europa a Luanda, e quando eu tentei fazer essa representação, foi tentar fazer um género de música que fosse uma mistura perfeita entre aquilo que eu ouvia na rádio, e aquilo que eu gostava que tivesse a ser feito em Luanda. É daí que aparece o Kuduro, o Baile Funk, “n” géneros que vivem deste movimento de absorver o global e transformar naquilo que nós somos hoje em dia. E esse movimento, no nosso ponto de vista, é um movimento que anda a mexer com a massa jovem. Então é muito interessante para nós apoiar esse movimento e não nos ficarmos pelas cenas simplistas…Ficar fechados num género. E nós também somos músicos que criamos sempre um género de fusão…

E estão também dedicados a projetos paralelos diferentes entre si…Isso influencia muito o processo criativo?

Sem dúvida! O facto de eu ouvir reggaeton ou de ter uma relação boa com baladas ou coisas do género, fez-me chegar aos Buraka em 2007 e dizer “Olha, o Anselmo Ralph vai rebentar Portugal” e de eles rirem na minha cara [risos]. Mas é normal! Nós somos um coletivo! Não somos os amigos de ir beber à sexta feira à noite juntos mas somos um coletivo que funciona muito bem em estúdio! Há muitos choques de coisas que não têm nada a ver entre uns e outros e o mais interessante, que faz com que a banda funcione, é o facto de não sermos todos iguais. Expande o horizonte!

Sexta feira não será somente o último concerto de Buraka, acontecerá também o “Globaile”, festival por vocês organizado. O evento é uma tentativa de promover a música eletrónica que se vai fazendo ou, por outro lado, uma forma de dar uma maior visibilidade aos artistas do género? Ou é uma mistura equilibrada dos dois?

Eu acho que o festival está mais dedicado em promover a musica eletrónica que se faz cá em Lisboa, em Portugal. Acho que é importante ter em conta, como já referimos antes, que Portugal pode vir a ser um dos grandes nomes nessa área. Não só pelo clima mas também por todo um restante conjunto de fatores que aqui existem…E às vezes este ritmo frenético que se vive  em Lisboa faz com que as pessoas não prestem atenção a coisas que podem estar a acontecer mesmo na casa do vizinho de baixo, que pode ser uma música que tem vinte milhões de views no youtube e que tu nem fazes a mínima ideia de quem seja! E é importante haver um festival, um evento que concentre estas pessoas a um ponto de luz que tu consigas ver e dizer “Foda-se, afinal há cenas buéda interessantes a acontecer que eu não fazia a mínima ideia”. E o conceito da cena do global não é só apresentar cenas que nós trabalhamos e que fazem parte do nosso feeling em termos musicais, que é o trabalho da Enchufada, como também é apresentar o conceito do “Buraka Forever”: são pessoas que ouviram Buraka e cresceram com Buraka. Hoje em dia faz todo o sentido para nós…Nenhum de nós é o Cristiano Ronaldo, mas a gente tem de passar a bola! [risos]. E estas são as pessoas ideais! Não acaba a essência!

O que podemos esperar do concerto de sexta-feira?

Acho que vai ser um concerto muito emotivo, vai haver muitas lágrimas, não só do nosso lado mas também do lado das pessoas que nos vão estar a ver… Muitas delas vêm de fora: México, Estados Unidos, Londres… Acho que vai ser muito fixe! E vai ser bom perceber até que ponto é que Buraka influenciou isto tudo! Para nós é perceber até que ponto é que influenciámos Lisboa, que nos criou. Eu já estou satisfeito como ser humano ao ver já há pais a levar filhos que também já curtem Buraka! Fica o legado!

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Por Inês Sousa Vieira

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