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bons sons

Avé Cem Soldos

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Bons Sons não poderia ser mais literal: são mesmo (muito) bons sons que invadem a aldeia de Cem Soldos durante quatro dias.

As actuações são muitas, a diversidade é evidente – desde a música até ao público que visita esta aldeia perdida no interior de Portugal. A criação de um cartaz que, ainda que recheado de diferentes palcos – com diferentes vistas, diferentes ambientes, diferentes sons -, se baseia num alinhamento não sobreposto permite que os visitantes percorram todas as oportunidades que lhes são fornecidas.

Avé, não-sobreposição! Com este pequeno e subtil factor, torna-se possível exponenciar a taxa de adesão a qualquer tipo de surpresas musicais e performativas. Se não se conhece, descobre-se. Se se conhece, não se perde em detrimento de outra coisa.

Qualquer actuação poderia ser alvo de destaque. Reunimos, no entanto, um pequeno conjunto daquilo que consideramos serem os momentos do festival, que, no seu conjunto, caracterizam ao máximo aquilo a que os visitantes tiveram oportunidade de assistir, e que concretizam o objectivo – claramente delineado previamente – do festival.

Adufeiras do Paúl

O calor é surpreendentemente abrasador. A sombra é escassa.

A igreja é a salvação.

As Adufeiras do Paúl iluminam as mentes e os corpos dos presentes. Equipadas com trajes tradicionais, bem que comentam com o público o calor que sentem – mesmo estando num dos locais frescos do momento. O suor é comum a todos. O tradicional liga-nos a todos, e junta-nos neste espaço tão sagrado para muitos. Com o passar dos anos, concertos em igrejas têm-se tornado cada vez mais habituais. A santidade aliada à tradição e aliada à não-tradição – julgo que nunca tinha visto alguém entrar descalço numa igreja -, numa mistura perfeita para uma receita equilibrada. Música Portuguesa A Gostar Dela Própria é o nome do palco, e o público a ama-a, no -quase-fresco da igreja. As músicas das romarias são. “São João”, “Vinho Verde”, “As 3 pombinhas” (e o público não consegue não se juntar na cantoria). O público inclui famílias, velhotes, crianças, jovens tatuados e descalços. Nunca uma igreja viu um público tão diversificado – nem aos Sábados de manhã. A música junta as pessoas, e, aqui, não é excepção.

BS_AdufeirasdoPaul©CarlosManuelMartins (2)

©Carlos Martins

Grutera

Estamos todos sentados no chão.
Estamos sentados a ouvir as cordas da guitarra a serem acaricidadas, mal tratadas – da boa forma -, a serem dedilhadas como só um profissional a sério o poderia fazer. Enquanto ouvimos e estamos quase, quase a entrar naquele transe que nos obriga a fechar os olhos, vemos um menino a passar. Pela t-shirt que veste, sabe-se que se chama “Rodrigo”. “Boa tarde” para todos e para cada um por quem passa. temos crianças junto a nós. Fechamos os olhos e relembramo-nos de onde estamos – e de onde não estamos.
Este foi um daqueles momentos em que ainda conseguimos acreditar que uma guitarra tem o poder de mudar e salvar o mundo. O silêncio e o respeito consequentes da brilhante – e colorida de emoção e entusiasmo dedilhado – actuação de Grutera só são interrompidos para dar lugar às mais violentas – novamente, no bom sentido – salvas de palmas que poderíamos esperar.

 

Lavoisier

“Lavoisier porque, na Natureza, tudo se cria, nada se perde”

 Os Lavoisier são uma das novas múltiplas faces da música tradicional portuguesa reinventada.
Não são fado, nem o pretendem ser.
A voz, no entanto, carrega todo o tipo de emoções que poderíamos retirar daqueles fados mesmo bons. Mas que também podemos retirar daquelas músicas mesmo boas. De um indivíduo expressivo de uma forma peculiar, com claros dotes para espalhar a ternura, a mágoa, a tristeza, a explosão, a força por filas e filas de outros indivíduos que pararam tudo simplesmente para escutar. Para Ouvir o canto dos nossos – e de quais outros – tempos.

Podemos fechar os olhos e escutar.

Abrimos os olhos e os gestos, os movimentos, as expressões do corpo – braços, pernas, as rugas da face, o sorriso, o olhar, os pés, as pernas – embalam-nos no ritmo da emoção dos Lavoisier.
(Se mais alguns de nós tivessem um pouco desse poder de expressão corporal, aliado às palavras, e aliado à emoção, o mundo seria um lugar ainda mais bonito).
São gestos puros, carregados de energia, que transportam a força das letras e da voz. São gestos que abraçam. Abraçam-na. Abraçam-nos – e haverá algo mais forte do que um abraço?

A guitarra ressoa. As vozes combinam-se, as letras recitam-se, as melodias sentem-se: somos tocados naquele local íntimo de puro prazer de apreciação de um belo momento – um estado de transe num momento em que se abrem as portas para algo “para além do terreno”, “para além da vida”.

Dizem-nos que “a música portuguesa é bela. Difícil é reconhecê-la”. No entanto, não temos quaisquer dúvidas de que aquilo que foi tocado, cantado – e abraçado – foi um conjunto de pequenas amostras do mais belo da palavra, da música, do sentimento português.

Isto não é fado: isto é música portuguesa.

BS_Lavoisier©CarlosManuelMartins

©Carlos Martins

Isaura

Isaura resulta de uma importação daquilo que se faz no mundo da (indie?) pop internacional. A voz suave, as batidas e os sons harmónicos que se repetem na nossa mente durante horas, após a breve audição das mesmas. Não é uma crítica: é um constatar de uma receita de sucesso.

Após a actuação bem sucedida no NOS Alive, eis que Isaura se coloca num palco mais pequeno, num mundo mais acolhedor e intimista. A pressão deste tipo de ambiente parece ter resultado: a ligação entre Isaura e o seu público – que sabe Todas as letras de cor! – tornou-se mais real, mais verdadeira, mais um “eu e tu, em conjunto, cantamos e aproveitamos esta bela tarde em Cem Soldos”.

Conseguimos observar o efeito que este tipo de música tem nos indivíduos: as crianças olham com fascínio, riem-se, escutam, e mostram sinais de amor à melodia. Os pais juntam-se aos filhos. As jovens teenagers deliram na primeira fila, cantando cada estrofe, cada verso, cada nota. A receita de sucesso é, realmente, a base de Isaura: uma artista que utiliza o lado agradável e bonito da música (novamente, indie?) pop internacional, e a traz para bem perto de nós, para o deleite de todos – e de qualquer um de nós.

Niagara, Dj Lilocox, Puto Márcio (Príncipe discos)

Cada vez se torna mais frequente a presença de elementos da label Príncipe Discos pelo cenário underground português e europeu. Uma representação dos novos sons de dance music portuguesa – da cidade, do subúrbio -, que apostam na exploração de novos sons, novas formas, novas identidades. Uma representação que tem permitido uma apresentação da diversidade sonora portuguesa por toda a Europa, e que tem conquistado inúmeros festivais de música electrónica.
Ninguém dispensa um bom passo de dança.

No entanto, por muito que as horas tardias possam indicar que “isto é só festa, isto é só abanar o rabo”, a realidade é que aquilo que Niagara, Dj Lilocox e Puto Márcio nos apresentam é uma pura mestria, um tremendo controlo, uma óptima performance que não poderia ser mais bem construída. Abanar o rabo, neste caso, é abanar ao som de algo que não se baseia nos martelinhos ou nos passos mais básicos do kuduro: não só é uma combinação de diversos géneros musicais, como é também uma construção altamente preparada.
Uma batida de sedução constante que nos impede de parar, que nos impede de dormir, que nos faz dilatar e sobressair aquela veia de dança – mesmo para aqueles que a têm mais escondida, como o senhor de 80 anos que se abanou até às 5 da manhã – e que nos faz agradecer pela óptima produção electrónica portuguesa, que é – felizmente – cada vez mais reconhecida – tanto cá dentro como lá fora.

Carminho

Carminho é um dos expoentes máximos daquilo em que a música portuguesa se tornou. Uma daquelas amostras de que a sinceridade, a humildade, a beleza interior e uma voz de um lugar muito longe deste planeta são as componentes necessárias para a conclusão de uma das equações mais brilhantemente concebidas no universo musical português: o fado de Carminho.

Nem só de boas vozes vive a boa música.
Nem só de boas vozes vive o fado.

Todos se juntam para assistir a este momento. As palavras duras de saudade, as palavras fascinantes que vêm do interior do bom português. As guitarras portuguesas, as harmonias perfeitas, as melodias de encanto.

Como descrever a beleza?

Procurar-se-á exemplificar um dos diversos momentos brilhantes desta actuação, procurando não destruir as belas memórias que temos daquele que foi o momento mais belo de todo o festival, e procurando demonstrar, em breves palavras, aquilo que se poderá classificar enquanto “belo”.

Carminho inclui, na sua actuação, uma canção “que costumava cantar na casa de fados”. O público, por momentos, torna-se naquele antigo público de uma casa de fados, num ambiente de intimidade estonteante – e seja destacado o facto de Carminho estar no palco principal do festival. Como?
Os microfones desligam-se. O silêncio invade o Bons Sons. Aguardamos.
Subitamente, escutamos.
Ouvimos. Sim, ouvimos!
Carminho canta sem microfone e o som chega até nós. É complicado descrever milagres sonoros, milagres musicais, mas a verdade é esta: do início ao fim do público – de milhares de pessoas -, todos ouvimos. A voz está longe, mas, de repente, qualquer distância que se poderia prever, que se poderia testar e ver, desaparece. Estamos junto a Carminho – bem, mas bem junto -, com o nosso copo de vinho, e com as nossas lágrimas no rosto.

É de lamentar a incapacidade de descrição do melhor momento do festival.
No entanto, não será tal uma amostra da transcendência alcançada nesta – pequena, muito pequena – hora de música, nesta – pequena, muito pequena – hora de fado?

As lágrimas ainda caem. Milagres não se vêm em Fátima, mas junto – bem junto – a Carminho, que nos mostra o maravilhoso caminho que a música portuguesa percorreu. As boas almas elevam-nos e o fado, desta forma, não morreu, nem nunca morrerá. O fado está nos nossos corações de portugueses e assim continuará.

Carminho

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Por: Teresa Vieira

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