As leituras de uma livreira disléxica

in Arte+Cultura by

Terminei de ler livro BEAT ATTITUDE e com esta leitura, consegui o meu propósito: ampliar o meu mapa literário, no que diz respeito ao movimento cultural Beat Generation.

IMG_8096©Nuno Fangueiro

Mas o que é isto de ampliar o meu mapa literário?
Até há pouco tempo, o meu universo beatnick estava povoado apenas pelo escritor e narrador Jack Kerouac e pelos poetas puros como Allen Ginsberg, Gregory Corso, William Burroughs ou Ferlinghetti. Pouco ou nada, sabia eu das mulheres que fizeram parte deste movimento.

As poetas foram relegadas em prol dos protagonistas varonis. Como em muitos outros movimentos literários e culturais, os poetas da Beat Generation foram directamente para as estantes da história da literatura norte-americana, e mais além, para as da literatura universal. E as mulheres que os acompanharam nas viagens ficaram anegadas pela sua condição de mulheres e perderam-se na história da literatura norte-americana tal como na universal.

Em simultâneo a esta colectânea poética, li o livro Personajes Secundarios, as memórias romanceadas de Joyce Johnson, companheira, amiga e amante de Jack Kerouac. No seu relato pude sentir a imensa frustração para com os machos de aquela fornada literária e cultural. Basta ler o título do livro. Apesar de muitas das poetas estarem a mesma altura que os seus companheiros, nunca deixaram de ser personagens secundárias e por vezes terciárias.

Para nos colocarmos um pouco mais em contexto e para verem como o meu mapa literário beatnick era pobre, vou tentar descrever-vos a geração beat através dos meus olhos. O meu mapa é desenhando não pela memória vivida (eu nasci em 81 em Portugal, logo não vivi a Beat Generation) mas sim pela minha memória imaginada e herdada das leituras que fui fazendo e dos documentários e filmes que fui vendo.
Quando apareceram os Beat o cenário mudou. Em Village apareceram cafés por todos os cantos (um pouco como no Porto nos últimos anos). Novos espaços que ofereciam eventos diversos, concertos de artistas folk, peças de teatro, recitais de poesia… em Nova York os recitais de poesia alcançaram ainda mais projecção: numa semana podiam ouvir a John Berrymann e a May Swenson, a Allen Ginsberg e a Denise Levertov, a Frank O’hara e Le Roi Jones.

Como podem ver a minha memória herdada era amplamente povoada por personagens masculinas, por isso foi e é para mim, e estou certa que para muitas pessoas amantes de literatura, importante este trabalho da Annalisa Marí Pegrum. Acho que a própria Annalisa era consciente desta necessidade de escrever a história deste movimento cultural, incluído todas as pessoas que fizeram parte e por isso nos oferece esta antologia poética, que é bastante completa.
Neste livro podemos encontrar as escritoras presas entre uma tradição cultural e de costumes presente na América dos anos 60 e o desejo de perdurar através da escrita poética.

No prólogo de Beat Attitude, Pegrum conta-nos, de forma muito resumida, a história dessa batalha particular que estas mulheres travaram contra a relegação e o silêncio. Essa relegação que podemos ver, se pesquisarmos álbuns de fotografias da Geração Beat no srº Google. Rapidamente constatamos que predominam os homens. Quando aparecem mulheres, fazem-no maioritariamente como acompanhantes, companheiras ou espectadoras. Sobre essa ausência das mulheres numa posição de equidade Annalisa Marí Pegrum fala-nos no prólogo, onde resgata as palavras de Gregory Corso numa conferência celebrada no Instituto Naropa em 1994:

“Houve mulheres, estiveram lá, eu conheci-as, conheci as suas famílias que as internaram, elas receberam choques eléctricos. Nos anos de 1950, se fosses homem, podias ser rebelde, mas se fosses mulher, a tua família mandava-te trancar. Houve casos, eu conheci-as, algum dia alguém escreverá a respeito.”

O orientalismo, a contracultura, a irreverência sexual e o desafio dos grandes tabus herdados da tradição, a protesta feminista, a crítica a subordinação aos homens, são alguns dos ingredientes da poesia que tinge as páginas de Beat Attitude.

De que poetas estamos a falar?
Da Elise Cowen, que se suicidou aos 29 anos, da Joanne Kyger, Lenore Kandel, Diane di Prima ou Denise Levertov; da ruth weiss, nascida na Alemanha, ruth é marcada de tal forma pela experiência do nazismo que elimina do seu nome e apelido, as maiúsculas como repudio a sua língua materna; da Janine Pommy Vega, da Hettie Jones, da Anne Waldman e Mary Norbert Körte. De….

Todas elas, filhas de uma época de grandes perturbações civis, que deixavam vislumbrar uma nova sociedade, na qual desde o fim da discriminação racial, à luta contra a guerra do Vietnam ou aos avanços no âmbito da igualdade entre homens e mulheres, deixaram pelo caminho sacrifícios, renuncias e perplexidades. Elas não eram alheias a estas lutas. Partilharam de todas estas reivindicações e contribuíram em todas as conquistas, mesmo que a sua aportação tenha aparentemente mínima. Foram poetas, e foram grandes. Beat Attitude colabora de forma decisiva para evidenciar isto.

Um livro que vos recomendo não perder de vista e lê-lo na primeira oportunidade.

 

Forma mais ampla - não sei se fazem aqueles rectângulos, com a cara da colaboradora e uma mini bio, que aparecem as vezes no fim das publicações. Livreira disléxica e bilinguisticamente baralhada que as vezes gosta de fazer que escreve. Promotora da primeira livraria de Mulheres em Portugal, a Confraria Vermelha, onde todas as pessoas que gostam de ler e conviver são bem vindas. Figura incontornável do movimento "Se não há mimos não é a minha revolução" que procura espalhar sororidade e comprovar que os unicórnios existem. Wiiiiiii!!!!!