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A viagem pelas Cidades Invisíveis de Alex Cassal

in Arte+Cultura by

Eu não sou da sua rua/ Não sou o seu vizinho / Eu moro muito longe, sozinho / Eu não sou da sua rua / Eu não falo a sua língua / Minha vida é diferente da sua / Estou aqui de passagem / Esse mundo não é meu / Esse mundo não é seu (Arnaldo Antunes)



O que é a cidade?

O espaço da existência, o local de trocas, a residência; o espaço de comunicação, o local de formação do individuo e da comunidade – ou a consequência inevitável dos mesmos -, a mutabilidade constante.
Qual a relação do ser humano com o ambiente que o rodeia, e qual a influência recíproca entre estes dois elementos?
Muitas teorias surgem, no âmbito da disciplina de Sociologia Urbana, procurando responder a este tipo de questões, com intervenções de William Whyte, de teóricos da Escola de Chicago, entre outros. Muitas definições são dadas, e diversos ênfases são empregues a diferentes características do ambiente que reconhecemos enquanto aquele em que estamos, habitamos e somos.

Mas não exploremos a teoria, não nos fixemos nessa vertente: fale-se, sim, de “Cidades Invisíveis”, peça de Alex Cassal, apresentada no Teatro Maria Matos, de 11 a 14 de Fevereiro.

O título é reconhecível: muitos já leram ou entraram em contacto com a obra de Italo Calvino. Em “Cidades Invisíveis”, o autor apresenta-nos uma narração baseada na estrutura de “As Mil e Uma Noites”, com um diálogo entre o explorador Marco Polo e o imperador Kublai Khan. 55 cidades, 55 descrições, e uma obra que ultrapassa por completo a – já de si complexa – discussão relativa à forma como um indivíduo percepciona a cidade, os ambientes, e como transmite essas mesmas impressões, através do discurso, a outros: é, para Calvino, um “último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades”.

As “Cidades Invisíveis” de Alex Cassal não são as “Cidades Invisíveis” de Italo Calvino.

Alfredo Martins, Paula Diogo e Rafaela Jacinto são 3 dos 55 objectos que estiveram em palco. 1 mapa, 2 bancos, 3 maçãs, 11 livros prefazem 17 objectos, o que, somando aos 3 iniciais, equivale a 20. Falta enumerar 35 objectos, mas eles estiveram lá, no palco, na sala de espectáculos, no Teatro Maria Matos, na Avenida de Roma, em Lisboa, em Portugal, na Europa, no planeta Terra. Sendo ou não fãs de enumerações, de criações de escalas, a realidade é que se procura demonstrar na frase anterior um pouco do seguimento narrativo de certos segmentos da peça. Na realidade, torna-se praticamente insustentável realizar um artigo com uma estrutura que represente, em si própria, o frenesim inicial que observamos, as mudanças constantes de elementos cénicos, as mudanças constantes de escalas – porque aquela maçã pode ser tanto um planeta, como a couve vizinha pode ser o Marquês de Pombal -, as mudanças constantes de temas.
 Não temam: uma narrativa frenética pode não resultar num artigo jornalístico, mas a realidade é que, em palco, resulta – e resultou.
As nossas concepções de espaço-tempo foram colocadas à prova, e a nossa imaginação deixou-se levar, de forma natural e fluida, pelas palavras e pelos movimentos dos nossos 3 guias/objectos/indivíduos.

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Mas as “Cidades Invisíveis” de Alex Cassal não são as “Cidades Invisíveis” de Italo Calvino.

Embora a influência da obra de Calvino seja evidente e ainda que sejam apresentadas algumas das cidades, a realidade é que esta peça não aparenta ter a ambição de ser uma representação desta obra. Como tal, a exploração do texto é elevada para uma apresentação de mundos imaginários ou reais, longíquos ou próximos, em que todos acabamos por estar invariavelmente ligados; a pessoa como cidade e a cidade como pessoa; uma apresentação de questões relativas aos refugiados, aos cidadãos, às comunidades e aos indivíduos; um questionamento relativo a questões da Vida (enquanto indivíduos e em comunidade), a questões do Ser.

Pergunta-se ao público:

Quem é tímido?
Quem é estrangeiro?

Pergunta-se ao público:

Qual de nós é preto?
Qual de nós usa as mesmas meias 3 vezes (ou mais!) de seguida?

A viagem decorreu, e a passagem por diversos mundos passou pela criação de fronteiras, de regras e de limites; de quebra-cabeças; de jogos. De um tapete, forma-se uma cidade. A partir daí – da forma que concretizou a sua premissa, ao tornar-se cidade -, delimita-se o espaço, criam-se fronteiras, definem-se regras e limites. Estabelecem-se trocas com os semelhantes, e rejeitam-se outros.

De uma forma, criou-se uma cidade.

O que é a cidade?

As perguntas ao público não foram somente uma mera tentativa de quebra da quarta parede. A partir destas perguntas, estabelecem-se ligações entre elementos do público, cria-se uma forma linear que aproximou, por momentos, elementos que se encontravam dispersos. Revelam-se ligações que poderão ser equivalentes àquelas que experienciamos todos os dias, enquanto habitantes da cidade que circulam rodeados por outros indivíduos.

As perguntas ao público não foram somente uma forma de revelação das ligações entre indivíduos dispersos num espaço. São-nos dadas pistas: as respostas não são – nem devem ser – imediatas. A partir destas perguntas, conhecemos um pouco do mundo de cada um destes 3 indivíduos, sendo que as revelações dos mesmos nos permitem não só ligarmo-nos a eles, como são o ponto de partida para grande parte da viagem que fazemos com eles. Um ponto de partida que poderia surgir somente do texto de Calvino, mas que é fortalecida pela vertente pessoal e íntima que nos é fornecida na narrativa.

O que é a cidade?

No final da viagem, procuramos ter uma resolução definida – as palavras certas – daquilo pelo qual passámos. O discurso não é – nem nunca será – suficiente para descrever uma cidade, para descrever os seus habitantes, para descrever indivíduos, para descrever peças de teatro. Mas existe uma ligação entre a experiência e o discurso: é esta, que se colocou aqui, neste momento.
Não temos respostas. Temos interrogações, divagações, explorações. E aquilo que, no fundo, realmente importa, é essa viagem. Em “Cidades Invisíveis”, fomos todos companheiros no mesmo barco, na mesma viagem, e o último porto, sem respostas, leva-nos à conclusão da obra de Calvino.

– É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.
E Polo:
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

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Por Teresa Vieira

Fotos: Luís Martins

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