curlymess.pt

42º Sofar Sounds Lisbon – Na tua casa ou na minha?

in Música/Reportagens by

Há 310 cidades espalhadas por todo o mundo onde, duas vezes por mês, os sábados à tarde são animados pelo Sofar Sounds. O conceito já nos é familiar, e faz com que, a cada edição, reconheçamos alguns rostos repetentes de outras tardes. No passado sábado, a 42ª edição do Sofar Sounds em Lisboa foi um regresso às origens, ao som de Caio, Zevinipim e Sease num terceiro andar em Campo de Ourique.

Fala-se em regresso às origens, uma vez que os primórdios do Sofar começaram em casas particulares, numa tentativa de fuga ao ruído do dia-a-dia, aproximando músicos e público da forma mais intimista possível. Sofia e Catarina ofereceram-se como hosts (atenção que qualquer um de nós o pode fazer no site do projecto), e abriram as portas do seu apartamento a amigos e desconhecidos, para transformarem a sua sala de estar, gira e bem decorada, numa sala de espectáculos (onde até venderam cerveja). A adesão foi tão bem sucedida, que até poderíamos ter criado o concurso “quantas pessoas cabem numa sala em Campo de Ourique” enquanto todos tentavam arranjar o melhor ângulo para conseguir ver os concertos da tarde.

Coube a Caio dar o pontapé de saída na tríade de concertos. A organização do Sofar conheceu o trabalho de João Santos através de um artigo na Revista Gerador e trouxe-o para cantar em casa. Nesse artigo, João diz nunca ter escrito sobre viajar, o que não deixa de ser curioso tendo em conta que Viagem é o seu último disco, editado em Maio deste ano. Esta viagem metafórica é cantada em Português (à excepção de Stockholm, tema composto para a banda sonora de uma curta metragem) e de olhos fechados, porque mais do que do público, as canções de Caio são o seu momento de introspecção, ao qual nos limitamos a assistir com todo o gosto, claro. Tudo isto resulta num folk fofinho, acompanhado apenas à guitrra, com uns toques de Ben Howard na voz que, efectivamente, fazem viajar.


Zevinipim é groove! É ritmo de rolézinho pela música do mundo.” lê-se na descrição da página de Facebook dos Zevinipim, banda castiça que atravessou o Atlântico, trocando Belo Horizonte por Campo de Ourique e aproveitando para dar “uma girada” pela Europa. Portugal, Itália e Suíça são os destinos escolhidos pela banda brasileira na sua segunda visita à Europa para espalhar a sua boa onda no velho continente. A tour europeia durará até ao final de agosto e os discos servem para ajudar a pagá-la. “Cada um dá o que quiser! Você é que escolhe o preço do disco.” À boa maneira brasileira, os Zevinipim trouxeram uma sonoridade entre bossa nova, funk e soul, a oscilar entre diferentes ritmos e texturas em cada canção. Um baixo gingão, guitarras a piscar o olho discretamente a um certo psicadelismo (à semelhança dos conterrâneos Boogarins, por exemplo). Apenas a falta de espaço impossibilitou os presentes de demonstrarem as suas samba skills, e de dançar ao som de Dendê (single editado no ano passado), Amor o Ano todo ou Pitica Bumbum (com uma passagem subtil por Águas de Março, no último refrão).

A fechar a tarde, eis que chegam os Sease. Um dos primeiros concertos da banda de Oeiras foi precisamente num dos primeiros Sofar Sounds Lisboa. Como o bom filho a casa torna, agora regressam mais crescidos e com um longa-duração fresquinho, editado em maio, que dá pelo nome de The Way The Waves Hit The Beach (disponível em edição física e digital). Encaixar os Sease num só género musical (se é que é suposto) não se torna fácil com o casamento entre sintetizadores, baixo, guitarras à la The XX, samples de percussão bem trabalhados, e a voz doce da giríssima Rita Navarro. Os primeiros temas a serem tocados deixaram-nos de orelhas levantadas e com vontade de saber mais sobre estes menino. Atman, o single de apresentação, conta com um vídeo “mesmo fixe” (palavras da vocalista Rita com as quais concordamos), realizado pela Harakiri, [link] consegue transportar bem a atmosfera dreamy que caracteriza a sonoridade dos Sease. “Sambino” é provavelmente um dos temas mais fortes do disco, como se pode comprovar apesar da banda se sentir intimidada pela presença de “uns brasileiros incríveis” (leia-se os Zevinipim) na sala. Não que houvesse motivos para medo. Muito pelo contrário, os samples de percussão utilizados deixam orgulhoso qualquer fã (ou praticante) de samba. Podendo, é ir ouvir estes meninos que transpiram potencial e que vão apresentar o novo trabalho ao vivo, no Sabotage, já no próximo dia 29 deste mês.

Terminada mais uma edição do Sofar Sounds, voltamos para casa sem nunca de lá ter saído. Estes sábados à tarde tornam-se já para alguns um ritual de família, ou não fosse tão bom sermos surpreendidos em sítios bonitos com música nova e rodeados de amigos. Vamos lá combinar então: quando é que é o próximo, mesmo?

_________________________________

Joana Esperança Andrade (texto)

Mariana Narciso (foto)

Últimos

Go to Top